A Carta Circular da Igreja de Esmirna: o martírio do bispo Policarpo

Dentre os patriarcas da Igreja Antiga, nenhum martírio tocou tanto em meu coração do que o martírio do Anjo da Igreja de Esmirna, Bispo Policarpo. São Policarpo nasceu em Esmirna na Turquia, em 69 d.C., tendo falecido em 23 de fevereiro de 155 d.C., pelas chamas do martírio na perseguição aos Cristãos pelo Império Romano no Século II.

Seu martírio ficou consagrado na “Carta Circular da Igreja de Esmirna”, a qual foi enviada a todas as igrejas espalhadas pelo Império a fim de fortalecer a fé dos irmãos, testificando a impetuosidade e firmeza do Santo Bispo da Igreja de Esmirna em face de quem lhe obrigava que apostatasse da fé negando ser Cristão.

Abaixo, então, transcrevemos esta linda carta para a edificação de todos os irmãos:

CARTA CIRCULAR DA IGREJA DE ESMIRNA

“A Igreja de Deus, estabelecida em Esmirna, à Igreja de Deus estabelecida em Filomélia e a todas as comunidades da Igreja santa e universal, onde quer que esteja: a misericórdia, a paz e a caridade de Deus Pai, de Jesus Cristo nosso Senhor, superabundem em vós.

Escrevemo-vos, irmãos, a respeito dos mártires e do bem-aventurado Policarpo, cujo martírio foi, por assim dizer, o selo final, que pôs termo à perseguição. Na verdade, quase todos os acontecimentos anteriores se efetuaram para que o Senhor nos mostrasse do céu o martírio narrado no Evangelho.

Policarpo esperou tranquilamente ser entregue, como o Senhor, para que aprendêssemos, com seu exemplo, a não ter em mira somente o que nos concerne, mas também os interesses do próximo (Fl 2,4). Realmente, a caridade verdadeira e firme consiste em não desejar apenas a própria salvação, mas a dos irmãos. Felizes, pois, e generosos todos estes martírios que se deram conforme a vontade de Deus.

Pois é dever da nossa piedade tudo atribuir ao poder de Deus. Deveras, quem não admiraria a generosidade desses mártires, a sua paciência, e amor ao Mestre? Dilacerados pelos açoites a ponto de se tornar visível a estrutura íntima da carne, das veias e das artérias, suportaram tudo com tal firmeza que os circunstantes se compadeciam e choravam. Eles, porém, chegaram a tanto heroísmo, que de nenhum se ouviu grito ou se viu lágrima.


Assim, esses generosos mártires de Cristo mostraram que naquela hora em que sofriam não estavam mais no corpo; mais ainda que o próprio Cristo, presente, se entretinha com eles. Confiando unicamente na graça de Cristo, desprezavam os sofrimentos do mundo e, por uma hora de tormento, se resgatavam do castigo eterno. O fogo dos algozes cruéis parecia-lhes frio; querendo fugir do fogo que não se apaga eternamente, fitavam com os olhos do coração os bens reservados aos que perseveram até o fim – “bens que o ouvido não ouviu, os olhos não viram, nem subiram ao coração do homem”, (1Cor 2,9), mas que o Senhor lhes mostrava porque já não eram homens e sim anjos.

Com a mesma coragem, outros enfrentaram sofrimentos horríveis; lançados às feras, estirados sobre conchas marinhas, torturados por toda sorte de suplícios, que o tirano prolongava para ver se seria possível induzi-los a renegar. Mas apesar de Satanás ter maquinado muitas coisas contra eles, graças a Deus nada alcançou. Pois Germânico fortaleceu pela heroica resistência, no seu maravilhoso combate com as feras, a pusilanimidade de outros.

Querendo o cônsul persuadi-lo a ter compaixão da sua juventude, Germânico, ao contrário, com pancadas excitou a fera contra si, na ânsia de livrar-se quanto antes da convivência daquela gente iníqua e criminosa. Por isso o povo, espantado diante do heroísmo dos cristãos, dessa raça que ama a Deus e é amada por ele, gritou: “Abaixo os ateus! (Ateus aqui seriam os cristãos). Tragam Policarpo!” Um apenas, chamado Quinto, frígio e recentemente chegado da Frígia, ao ver as feras, acovardou-se.

Esse, justamente, tinha desafiado espontaneamente o poder público e incitado outros a fazerem o mesmo. Mas não resistiu às instâncias repetidas do procônsul, fez juramento e ofereceu. Eis por que, irmãos, não louvamos os que se entregam espontaneamente a si mesmo; de mais a mais não é isso que ensina o Evangelho. Policarpo, o mais admirável longe de se perturbar ao receber esta notícia, quis permanecer na cidade.

Muitos, entretanto, o persuadiram a retirar–se. E ele se retirou para uma pequena casa de campo, a pouca distância, onde permaneceu, com poucos amigos, nada fazendo senão rezar dia e noite por todos e por todas as igrejas conforme o seu hábito. E quando orava teve uma visão, três dias antes de ser preso. Viu seu travesseiro pegando fogo. Voltando-se para os que estavam com ele, disse-lhes: ”Devo ser queimado vivo”.

Como prosseguissem em buscá-lo, transferiu-se Policarpo para outra casa de campo. Logo depois chegaram seus perseguidores, e como não o achassem, prenderam dois jovens escravos, um dos quais, vencido pela tortura, lhes deu a indicação. Já então não lhe era mais possível escapar, uma vez que os traidores eram de sua própria casa. O chefe de polícia, que com razão tinha o nome de Herodes, apressou-se em conduzir Policarpo para o estádio.

Assim devia ele obter sua parte na herança do Cristo a quem aderira; ao passo que os traidores, parte no castigo de Judas. Numa Sexta-feira, mais ou menos pela hora da ceia, partiram os perseguidores com um destacamento de cavalaria, armado na forma habitual, “como se procurassem um ladrão” (Mt 26,55). Servia-lhes de guia um escravo. Chegando alta noite foram encontrar Policarpo no primeiro andar da pequena casa. Teria tido tempo de buscar outro refúgio; mas não o quis, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus”.

Informado da presença dos soldados, desceu e conversou com eles, que ficaram pasmos vendo sua idade e sua calma, e perguntaram entre si por que capturar com tanto empenho um ancião como aquele.
Policarpo, entretanto, mandou servir-lhes comida e bebida à vontade e pediu-lhes apenas o prazo de uma hora para orar livremente.

Tendo eles consentido, Policarpo começou de pé a sua oração; a graça divina transbordava nele de tal maneira que pelo espaço de duas horas não pôde interrompê-la. Todos os que ouviram se encheram de espanto e muitos se arrependeram de perseguir a um ancião tão cheio do amor de Deus.

Concluindo a oração, na qual se lembrara de todos que havia conhecido, grandes e pequenos, nobres e humildes e da Igreja de Cristo de toda parte do mundo, chegou o momento da partida. Montando um jumento foi conduzido para a cidade, já na manhã do grande Sábado. Vieram a seu encontro Herodes, o chefe de polícia, e Niceto, seu pai, os quais o fizeram sentar-se consigo no carro e tentaram persuadi-lo: “Que mal pode haver em dizer: César é Senhor, oferecer o sacrifício, e dizer as coisas que o seguem, para salvar-se?”

A princípio não respondeu, mas como insistissem, disse-lhes Policarpo: “Não teria o que me aconselhais!” Perdida assim, a esperança de seduzi-lo, insultaram-no com palavras ameaçadora e jogaram-no do carro com tanta precipitação que feriu na queda a parte anterior da perna. Policarpo nem sequer voltou-se, mas prosseguiu alegremente o caminho para o estádio, depressa como se nada houvesse sofrido.

Aí, reinava tal tumulto que ninguém podia fazer-se ouvir. Quando ele entrou, foi ouvida uma voz do céu, dizendo: “Coragem, Policarpo, seja homem!” Ninguém viu quem falou, mas a voz foi ouvida pelos irmãos presentes. No momento em que Policarpo chegou e a multidão soube que estava preso, aumentou o barulho. Foi levado à presença do procônsul, que iniciou o interrogatório, perguntando se de fato era Policarpo.

Recebida a resposta afirmativa tentou persuadi-lo a renegar a fé: “Respeita a tua velhice” . E seguiram-se os argumentos usuais, em tais circunstâncias. “Jura pela sorte de César, renega as tuas idéias e dize: Morte aos ateus!”. Policarpo então, voltando-se para a multidão do estádio, fixando firmemente com um olhar severo aquela ralé criminosa, elevou a mão contra ela e disse, com os olhos voltados para o céu: “Morte aos ateus”. Insistiu ainda o procônsul: “Faze o juramento e eu te libertarei. Insulta ao Cristo”.

Respondeu Policarpo: “Há oitenta e seis anos que o sirvo e nunca me fez mal algum. Como poderia blasfemar meu Rei e Salvador?” Como de novo insistisse, dizendo: “Jura pela sorte de César”, replicou Policarpo: “Se esperas, em vão, que vá jurar pela sorte de César, simulando ignorares quem sou, ouve o que te digo com franqueza: sou cristão! Se, por acaso, quiseres aprender a doutrina do cristianismo, concede-me o prazo de um dia e presta atenção!” Disse-lhe o procônsul: “Experimenta persuadir o povo”.

Respondeu-lhe Policarpo: “Julgo que diante de ti devo explicar-me, pois aprendemos a honrar devidamente os princípios e as autoridades estabelecidas por Deus quando não são nocivas à nossa fé. Quanto àquela gente, porém, não a julgo digna de ouvir a minha justificação”. Nem com isso desistiu o procônsul: “Tenho feras”, disse, “às quais te lançarei, se não te converteres”. “Faze-as vir”, respondeu Policarpo; “impossível para nós uma conversão do melhor ao pior; o bem é poder passar dos males à justiça”.

De novo, o procônsul: “Se não te convertes, se desprezas as feras, eu te farei consumir pelo fogo”. Policarpo: “Ameaças com o fogo que arde um momento e logo se apaga. Não conheces o fogo do juízo que há de vir e da pena eterna onde serão queimados os inimigos de Deus. Mas, que esperas ainda? Dá a sentença que te apraz!” Proferindo estas e outras palavras, transbordaram nele a generosidade e a alegria e no seu rosto resplandeceu a graça.

Não somente o interrogatório não o perturbou, mas foi o procônsul quem perdeu a calma. Este mandou então o arauto proclamar por três vezes no estádio: “Policarpo acaba de confessar-se cristão”. Mal tinha anunciado, a multidão de gentios e judeus de Esmirna prorrompeu em gritos furiosos e desenfreados: “Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o blasfemador dos nossos deuses, o que induz tantos outros a não mais honrá-los com sacrifício e orações”.

E assim gritando, exigiram do asiarca Filipe que lançasse um leão sobre Policarpo. Ele recusou-se, observando que isso era impossível, pois os combates de feras haviam sido proibidos. Ocorreu imediatamente outra ideia à multidão gritando, a uma só voz: “Que Policarpo seja queimado vivo!”.

Com efeito, era preciso que se cumprisse a visão do travesseiro. Tinha visto em chamas, quando estava em oração e voltando-se para os fiéis que o rodeavam dissera em tom profético: “Devo ser queimado vivo”. E isso foi feito mais rapidamente do que falado.

O povo saiu à busca de lenha nos armazéns e nos banhos, e, como sempre nestas ocasiões, os judeus eram os mais ardorosos. Armada a fogueira, Policarpo despiu as suas vestes, desatou o cinto, tentou desamarrar as sandálias, o que já não fazia, pois os fiéis sempre se apressavam em ajudá-lo, no desejo de tocar-lhe o corpo, no qual muito antes do martírio já brilhava o esplendor da santidade de sua vida.

Rapidamente cercaram-no com as coisas trazidas para o fogo. Quando os algozes quiseram amarrá-lo, disse-lhes: “Deixa-me livre. Quem me dá forças para suportar o fogo, dar-me-á igualmente a de ficar nele imóvel sem necessitar deste vosso cuidado”. Não o fixaram, amarram-lhe apenas as mãos.

Policarpo, de mãos ligadas às costas, cordeiro de escolha tomado de um grande rebanho para o sacrifício, holocausto agradável preparado ao Senhor, olhando o céu disse: “Senhor, Deus onipotente, Pai de Jesus Cristo, teu Filho amado e bendito, pelo qual te conhecemos: Deus de toda a família dos justos que vive na tua presença – eu te bendigo por me haveres julgado digno deste dia e desta hora, digno de participar no número dos mártires, do cálice do teu Cristo para a ressurreição da vida eterna do corpo e da alma, na incorruptibilidade do Espírito Santo! Recebe-me, hoje, com eles, na tua presença como sacrifício agradável e perfeito e o que me havias preparado e revelado realiza-o agora, Deus da verdade. Por isto e por tudo eu te louvo, te bendigo, te glorifico por teu Filho, Jesus Cristo, nosso eterno Sumo Sacerdote no céu. Por ele, com ele e o Espírito Santo, glória seja dada a ti, agora e nos séculos futuros. Amém”


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