As crianças quando morrem na infância vão para o céu?

Ótimo material de consulta que utilizei para escrever o presente texto são os 4 volumes da obra Teologia para Pentecostais, do Pastor Walter Brunelli (disponível na Amazon). O pastor Brunelli é um Mestre reconhecido no meio evangélico pentecostal.

Admiro muito a sua história, visto que estudou e conviveu academicamente em cursos de teologia reformada (calvinista) não tendo perdido sua essência e fé pentecostal, pois na época em que iniciou seus estudos teológicos era muito difícil encontrar faculdades de teologia que fossem baseadas na doutrina pentecostal.

Ainda assim, o pastor Walter manteve sua interpretação literal e poderosa das Sagradas Escrituras nos pontos da doutrina do Espirito Santo (pneumatologia), da doutrina da salvação (soteriologia), e também da doutrina das últimas coisas (escatologia), conforme nossa fé veementemente pentecostal, biblicamente, nos ensina, enchendo-nos os corações e nossas mentes com o poder de Deus ao lermos a Santa Palavra.

A presente questão que ora se põe nada mais é do que um desses pontos polêmicos capaz de dividir teologias, que, entendo eu, apenas a interpretação literal e soteriológica pentecostal se amolda ao que o texto Sagrado nos revela. A resposta para a questão da Salvação Infantil está doutrinariamente localizada, para fins didáticos, na soteriologia bíblica, ou seja, na doutrina da salvação.

As crianças, ao morrerem ainda na primeira infância, ou seja, quando não fazem o uso pleno da razão, irão ou não para o céu? Isto é, serão ou não salvas? Comecemos analisando o texto chave e básico para a fiel resolução de tal celeuma, as palavras do Senhor Jesus no evangelho de Mateus 19.14: “Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos Céus”.

A interpretação exegética deste texto é simplória, de modo que se Jesus quisesse ensinar de outra maneira diretamente o faria, pois nenhum de nós, meros leitores e aplicadores da Palavra do Senhor, podemos subentender o entendimento do Senhor Jesus quando suas palavras são tão diretas desta maneira.

Primeiramente, não havia uma ou duas crianças ali sendo levadas aos Senhor Jesus. O evangelista escreve que levaram a ele “alguns meninos” (vs. 18) para que os impusesse as mãos, estando os discípulos a repreendê-los de diante do Mestre. Não se pode, então, dizer-se que Jesus estava a tratar de cada criança em sua individualidade, mas estava a tratar-lhes coletiva e igualmente, simplesmente em seu critério biopsicológico: “pequeninos” (crianças).

Dirigindo-se, pois, às várias crianças que ali estavam, tratando-as como iguais diante de si, foi categórico em dizer-lhes: “dos tais é o Reino dos Céus”. Veja que não há um “talvez seja das tais”, ou para “alguma das tais”, ou para “parte das tais” é o Reino dos Céus. Muito menos Ele disse “as tais foram escolhidas por mim para herdarem o Reino dos Céus”.

A Palavra “É” deriva do verbo “ser”, que denota um direito adquirido, uma passagem direta, a expressão de algo que já está há muito tempo definido por Deus. Elas simplesmente são possuidoras dos Céus. Não poderia ser diferente. Vemos em Romanos 10:9, que “se com a boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”.

Crianças não tem possibilidade alguma de bem articular utilizando-se da fala, nem mesmo os juízos estão formados para bem entenderem e colocarem o coração no que é santo ou profano. Seria Deus mal ao ponto de lançar um ser indefeso e desprovido de livre expressão e juízo no inferno? Absolutamente que não, pois tornaríamos o Senhor Deus o autor do mal.

O Senhor Jesus, explicita e abertamente nos ensinou que a sua graça já estava derramada sobre os pequeninos. Independentemente da postura dos seus pais ou de suas mães, se são ímpios ou se são crentes, não tendo as crianças entendimento para corresponder à Graça Preveniente, Jesus já demonstrou que esta graça lhes havia sido dada por direito adquirido e passagem direta ao Reino dos Céus.

Qualquer outra interpretação é colocar nas Palavras de Jesus um entendimento humano reducionista, inventado e manipulado que não nos cabe. Veja-se que o evangelista Marcos anotou que Jesus, ao ver os discípulos impugnando o acesso das crianças às suas bênçãos, indignou-se (Marcos 10.14). Como quem diz: “quem dera vocês fossem crianças para terem acesso direto aos Céus”.

Realmente eles não faziam ideia do que estavam fazendo. Estavam bloqueando os possuidores por excelência de terem contato com o dono da propriedade. Se delas é o Reino, quem somos nós para impedi-las de serem abençoadas pelo Senhor Jesus?

Sendo assim, tomamos por certo que as crianças são salvas, até o momento que se tornarem capazes de fazer o uso da razão e entenderem o bem e o mal e assim autodeterminar-se, aflorando-se a natureza pecaminosa. Veja-se, igualmente, a postura do SENHOR Deus ao determinar a Josué quem entraria na Canaã terrena:

“E vossos meninos, de que dissestes: por presa serão; e vossos filhos, que hoje nem bem nem mal sabem, ali entrarão, e a eles darei, e eles a possuirão” (Dt. 1.39).

Ora! Se foi assim na Canaã da terra, como seria diferente na Celestial? Haveria injustiça no tratamento do SENHOR? De modo algum! De igual sorte, há um raciocínio lógico, desvelado pela doutrina soteriológica do Apóstolo Paulo, especialmente nos versículos 12 e 14 do capitulo 5 de Romanos, onde ensina que

“[…] como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. […] no entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão, o qual é a figura daquele que havia de vir”

Isto significa que, se o pecado de Adão foi capaz de fazer com que os homens nascessem em pecado, o Sangue de Jesus Cristo que tira o pecado do mundo é suficiente para anular o pecado com a benção da salvação àqueles que não fazem uso da razão para se autodeterminar pela natureza pecaminosa ou pelas boas obras da salvação, que são frutos da fé em Cristo Jesus (Efésios 2.10).

Nesse sentido ensina Strong:

“Como sem o seu ato pessoal os infantes herdaram a corrupção da parte de Adão, assim, sem o seu ato pessoal foi-lhes provida a salvação em Cristo” (Strong, 2003. p. 300).

Nesse ponto, há o interesse em saber qual é o momento em que a “criança” torna-se entendedora do bem e do mal, passando-se a ser capaz de se autodeterminar por um destes dois lados. Consoante o ensinamento do catedrático Pr. Walter Brunelli:


​​”Não é possível acomodar-se no argumento de que ‘das tais é o reino dos céus’ como doutrina absoluta de salvação infantil. É necessário considerar os limites demonstrados pelo próprio contexto, à luz do original, o qual põe em destaque crianças realmente inocentes. A responsabilização pelos atos infantis, a partir de certa idade, varia de criança para criança. Até completar os 18 anos de idade, o indivíduo é considerado ‘menor de idade’; se cometer delito, não será condenado, porque é apenas ‘infrator da lei’, isentando-se, assim, da responsabilidade penal aplicável a um indivíduo ‘maior’. O parâmetro bíblico certamente é outro. Em Lucas 18.15-17, começa a narrativa em que Jesus abençoa as crianças, aplicando o termo brephos, que no grego quer dizer ‘crianças recém nascida’; ‘criança de colo’; ‘lactante’. Embora o texto, a seguir, empregue o termo paidia, que indica criança, sem especificar idade, subentende-se, ainda, pelo contexto de Marcos 10.13-16, que se trate de crianças pequenas, porque contribui o texto informando que Ele as tomou nos braços, o que parece indicar que eram crianças de colo. Enquanto inocente, a criança está debaixo da proteção do sangue de Jesus. Seria uma contradição da própria lei condenar um inocente (Jó 4.7). Enquanto Jesus falou que ‘das tais é o reino de Deus’ (referindo-se às criancinhas), em Mateus 18, depois de haver dado uma lição de conversão aos discípulos, tomando uma criança como modelo, pela sua simplicidade, confiança, humildade e facilidade em acreditar, Ele concluiu dizendo que não é da vontade do Pai que nenhum desses pequeninos se perca. Ora, nessa expressão, Jesus admitiu a possibilidade de perda (cf. 2 Pe 3.9). Em Apocalipse 20.12, João diz que viu grandes e pequenos que compareciam para juízo, diante do trono do Cordeiro.”

Fica, assim, explicado, que não existe idade certa para que a criança seja consciente de estar fazendo bem ou estar fazendo o mal. Tal capacidade varia para cada ser humano. Portanto, caso você seja pai ou mãe e esteja lendo este texto preste atenção nas atitudes e comportamentos de seu filho e veja como se comporta para o bem ou para o mal, para saber se está consciente de suas ações.

Ensine-o no caminho em que deve andar e se empenhe para que ele corresponda com fé neste caminho. De outro lado, caso você seja uma criança prodígio e esteja lendo e compreendendo este texto, saiba que você tem pleno conhecimento do bem e do mal e pode sim vir a sofrer a perdição se não andar nos caminhos do Senhor Jesus com fé, demonstrando os frutos da salvação que são as práticas de boas obras (Efésios 2.10).

Tomemos cuidado, entretanto, com a interpretação de textos isolados para explicar a Salvação Infantil, em passagens nas quais não está sendo abordado tal assunto. A exemplo do ensino do Apóstolo Paulo no qual explica acerca da santificação do matrimônio com cônjuge descrente:

“Porque o marido descrente é santificado pela mulher, e a mulher descrente é santificada pelo marido. Doutra sorte, os filhos seriam imundos; mas, agora, são santos” (1 Co. 7.14).

Na interpretação deste versículo não pode ser confundida a “santificação” aqui atribuída pelo SENHOR, com a “santificação” que é a dedicação piedosa e diária do “salvo” perante Deus. O Apóstolo está ensinando que ser um dos cônjuges descrente não torna o casamento um pecado perante o cônjuge crente.

Assim, tendo Deus santificado o cônjuge descrente pela fé do cônjuge crente, não é necessário pôr fim ao matrimônio. De igual maneira, gerar filhos deste relacionamento também não é pecado, pois Deus os santificou pela fé do cônjuge crente.

Utilizar-se deste versículo para explicar que “a fé de um dos pais pode gerar a salvação dos filhos” é um completo erro de interpretação bíblica.

Esperamos que este texto tenha sido esclarecedor de todas as dúvidas que permeiam esta área soteriológica da Salvação das Crianças que não fazem uso da razão e não conseguem se autodeterminar racionalmente para o bem ou para o mal.

Ainda que existem interpretações diversas por outros intérpretes das diversas “teologias” que hoje existem, leia o texto sagrado e confronte com nossas conclusões, assim como fizeram os irmãos Bereanos (Atos 17.10-11), certamente o SENHOR Deus falará com você por intermédio de sua Santa Palavra.

Autor: Rafael J. Dias

Pastor na Assembleia de Deus Ministério de Santos, advogado, escritor e ativista pelos direitos sociais. Formado em Direito pela Universidade Católica de Santos e em Teologia pelo IBAD. Especialista em Direito da Administração Pública pela Estácio. Pós-graduando em Liderança Pastoral pela FABAD.

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