A visão equivocada dos evangélicos brasileiros é achar que o governo secular deve impor a religião

Enquanto escrevia estas linhas, saiu uma publicação da revista Época noticiando que muitos irmãos evangélicos já estão abrindo os olhos e abandonando o absurdo que está ocorrendo em nosso país, que estava arrastando milhares de evangélicos incautos para uma visão distorcida da missão dada por Cristo. Graças dou ao nosso bom Deus!

Hoje inicio uma série acerca dos erros que nós evangélicos cometemos na política e ao pensarmos em sociedade (me incluo, pois não posso deixar de estar no meio do meu povo).

Esta série de artigos comporão uma grande resenha da primeira das “cinco visões equivocadas acerca de cristianismo e governo”, que estão descritas no Capítulo 1 do livro “Política Segundo a Bíblia” do teólogo americano Wayne Grudem. (compre clicando na imagem ao lado).

Se hoje, após ler o primeiro capítulo deste denso e alarmante livro de Grudem, eu fosse questionado pelo próprio autor qual das cinco visões equivocadas por ele destacadas a Igreja Evangélica brasileira está praticando, eu diria que estamos patinando sobre a primeira, por falta de conhecimento bíblico e social.

As cinco visões destacadas por Grudem são equivocadas e igualmente graves, mas a primeira é a base do comportamento social da Igreja para relacionar-se com as demais pessoas na sociedade. É através desta visão distorcida que praticamos o mesmo erro dos fariseus tão criticados por Jesus, que já os denunciava dizendo:

“ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.” Mateus 23:13

A visão equivocada acerca de cristianismo e governo que a Igreja Evangélica brasileira está cometendo é pensar de maneira inflamada que o governo civil deve impor a religião, estabelecer preferência religiosa, adotar como oficial nossos cultos em detrimento de todas as demais religiões que estejam presentes na nação.

Este pensamento de se utilizar do cristianismo para diminuir, desprezar e subjugar as demais pessoas já foi utilizado por muitos políticos no decorrer da história, na maioria das vezes apoiada por quase que a inteireza da população cristã da época. Porém, as consequência de tal visão foi de densas trevas no transcorrer dos mil anos da era medieval.

Segundo Grudem, a visão de que o governo civil deve obrigar as pessoas a apoiar ou seguir determinada religião é completamente equivocada. Para corroborar sua opinião ele chama o leitor a fazer uma releitura da história da religião e do Estado para perceber as calamidades históricas que foram decorrentes desta visão.

A título de exemplo Grudem faz referência à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que teve seu estopim com um conflito entre protestantes e católicos desejosos de controlar posses de terras, principalmente na Alemanha. Dentre muitas outras “guerras religiosas” que ocorreram nos séculos 16 e 17 na Europa, entre católicos e protestantes.

Nas palavras de Grudem:

“Também no século 16, protestantes reformados luteranos perseguiram e mataram milhares de membros de grupos anabatistas na Suíça e na Alemanha, que desejavam ter igrejas “só para os crentes” e que batizavam por imersão aqueles que faziam uma profissão pessoal de fé”

Contudo, ouso ir além do contexto histórico utilizado por Grudem, pois a questão da visão distorcida sobre cristianismo e governo, antes de existir a disputa das próprias denominações religiosas guerreando entre si para conseguir poder e espaço no controle da sociedade, era o próprio governo secular (Estado) que guerreava contra a própria Igreja. Até que o governo percebeu que utilizar-se da visão da imposição da religião sobre o povo seria a solução, em meio à ignorância política do povo cristão.

Referido quadro se deu com a ascensão do Imperador Constantino que, após ter entendido que a perseguição do Império Romano contra o crescimento dos cristãos não tinha dado certo por mais de três séculos, decidiu arrefecer os ânimos dos cristãos em face da perseguição (que só os fazia crescer) tornando o cristianismo a religião oficial do Estado, impondo-o sobre as religiões pagãs existentes.

Mesmo que houvesse sinceridade na conversão do Imperador Constantino, não há que se negar que também tratou-se de um ato político. Constantino se considerou o Sacerdote Supremo do povo, se consultando com cristãos para decidir os seus rumos. Após 100 anos desta mistura, o Império ruiu pela ocupação bárbara, que fez com que Roma ficasse destituída de Imperadores.

Surge, então, a figura Papal. Sem Imperadores, o bispo de Roma se torna Supremo Sacerdote, legislador e administrador de Roma e do mundo ocidental que deveria se subjugar aos seus comandos. Surge o período das trevas, em que as pessoas não tinham entendimento das escrituras, nem podiam se reunir para bem decidir se queriam seguir a religião papal, sem que fossem perseguidas e mortas.

Referida mistura de poder entre Estado e Igreja chegaria em seu ápice na Reforma Protestante, diante do completo desvirtuamento das tradições da Igreja Católica com o que as Escrituras ensinavam. Mas o flerte da Igreja com o Estado permanece grande até hoje e sendo ensinado erroneamente por muitos e agora está castigando a mentalidade dos evangélicos brasileiros.

Os cristãos (Católicos Romanos) brigaram tanto por territórios e poder político na Idade Média (cruzadas e outros conflitos), que muitas religiões atualmente continuam a perseguir os cristãos e nutrem um preconceito com o Cristianismo, como o hinduísmo e o islamismo, por razões históricas.

Conforme escreve Grudem, após conflitos religiosos, em 1779, três anos após a Declaração da Independência dos Estados Unidos, Thomas Jefferson redigiu a “Declaração de Virgínia para a Instituição da Liberdade Religiosa”, que refletia o apoio crescente à liberdade de expressão religiosa nos Estados Unidos. Seguem as palavras de Jefferson:

“Seja decretado pela Assembleia Geral que nenhum homem poderá ser obrigado a frequentar ou apoiar qualquer culto, local ou ministério religioso, nem será forçado, impedido, prejudicado ou afligido, em seu corpo ou em seus bens, nem sofrerá de qualquer outro modo em razão de suas opiniões ou crenças religiosas. Antes, todos os homens terão liberdade de professar e, por argumentos, defender suas opiniões em questões religiosas, o que não diminuirá, nem aumentará, nem afetará de qualquer outro modo sua capacidade civil”

Igualmente, no Brasil, temos o direito à liberdade religiosa, por meio da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, que prevê no artigo 5º, inciso VI, a liberdade de consciência, de crença e de culto religioso, tendo o Estado brasileiro inclusive o dever de proteger os locais de culto e suas liturgias.

Quem somos nós, então, para achar que uma religião deve sobressair politicamente sobre a outra se a política é sempre aliciada pela maldade e pelo pecado que rondam o mundo? Podemos, sim, exercer influência com bons políticos e governantes cristãos, mas querer transformar o Brasil numa nação com religião oficial é repetir erros históricos – nunca há sucesso em utilizar-se da Palavra de Cristo pela conquista do poder secular.

Nosso Reino não é daqui. Nosso Reino será juntamente com o nosso Rei Jesus, Salvador do mundo. A Igreja não pode se misturar com a maldade. É incogitável que a Igreja habite como um só no meio de cães devoradores.

Temos homens escolhidos para a missão específica de atuar na Política, cheios do Espírito Santo de Deus para impedir que o Anticristo reine antes do tempo determinado por Deus. Mas o papel da Igreja é proclamar o evangelho de paz do Reino de Deus que está infinitamente acima do governo secular, tendo como objetivo: Salvar as vidas que se perdem, abrindo as portas dos Céus.

Poderíamos mudar tal mentalidade do povo evangélico brasileiro, mas a história continua a se repetir, por falta de conhecimento e de ensinamento de que a Bíblia mostra que a visão de que o governo deve impor a religião é equivocada e contrária ao próprio ensino bíblico, como demonstraremos nos próximos posts, inciando-se com a verdade de que “Jesus fez distinção entre o reino de Deus e o de César”.

3 comentários em “A visão equivocada dos evangélicos brasileiros é achar que o governo secular deve impor a religião

  1. Amei o texto, Rafael!
    Que você consiga esclarecer muitas pessoas com seu espírito corajoso e bondoso.
    Parabéns pela iniciativa tão importante.

    1. Obrigado, Ingrid. Se existe uma razão pra minha vida, só pode ser está. É o que eu sei fazer, esclarecer a verdade e não deixar que meu povo seja enganado e oprimido.
      Grande abraço, minha amiga!

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