O sistema de distribuição de renda do Antigo Testamento revela que Deus rejeita a ganância dos poderosos

Ouça o texto:

Nosso texto bíblico base para o presente texto se encontra no versículo 8 do capítulo 5, do livro do Profeta Isaías, que profetizou ao povo de Israel dizendo:

“Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!”

Em breves linhas introdutórias, Isaías, sendo profeta pré-exílico (antes de o povo de Judá ser levado cativo à Babilônia), foi levantado por Deus para denunciar os erros do povo que estava atraindo a ira de Deus, dentre esses erros a “ganância” e o desprezo aos mais pobres.

“Os ricos acumulavam bens tratando injustamente os pobres e criando uma economia latifundiária. Isso ia contra a legislação israelita, que considerava a terra um patrimônio inalienável de cada família (Lv 25.10, 13-16, 23-24). Miqueias, que foi contemporâneo de Isaías, lança a mesma acusação (Mq 2.1-2,9)” (notas de comentário de Is 5.8 na Bíblia da Escola Bíblica, Sociedade Bíblica do Brasil: Editora Cristã Evangélica, p. 980 – “in fine”)

Mas qual era a razão de tal repreensão tão dura por Deus? Deus condena os investimentos financeiros? A economia na época do Antigo Testamento era expressada na posse de terras capazes de produzir riquezas. Por que acumular essas terras era errado?

A AGRICULTURA ATÉ HOJE É PRÓSPERA NO SUL ISRAELENSE (CRÉDITOS: http://www.veredgo.com.br/tour-agricola-no-sul-de-israel/)

DEUS CONDENA O INVESTIMENTO IMOBILIÁRIO OU FINANCEIRO?

Uma resposta a essa pergunta não é tão simples, portanto, comecemos considerando o contexto desses grandes proprietários de terras judeus.

Desde o princípio de Israel, a posse da terra é um direito legítimo de todo judeu. A terra é recebida como herança e dividida por lei (Josué 14.1-5). A identificação do judeu como membro do povo de Deus estava intimamente ligada à posse de porção da Terra Prometida, por isso era proibida a sua venda permanente.

Vejamos o que diz Levítico 25.23:

“Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos”

Lembremos que, após Cristo vir julgar as nações junto de seus Santos arrebatados (Igreja), estabelecerá seu reino milenar na Terra Santa (Is 2.1-3; 60.3), que sempre foi dEle o local que estabeleceu para ser Rei no meio de seu povo (Mt 25.31-46).

Jesus referenda esta profecia veterotestamentária ao exortar que o acúmulo de posses na terra é facilmente corrompido pela força dos opressores, advertindo-nos que acumulemos tesouros nos céus que são infinitos para todos que o buscarem (Mat 6.19).

Retornando ao ponto chave, não obstante a isso, era permitida a venda de terras, e seu valor era baseado em sua produtividade, até o Ano do Jubileu, conforme Levítico 25.14-17, tempo dividido em cada 50 (cinquenta) anos, segundo a Lei, e consistia no período em que (memorize isto) todos os judeus deveriam voltar à sua terra recebida por herança e devolver toda terra comprada (Lv 25.10,13).

Então vem a grande pergunta: qual era o sentido disso? Era espiritual ou social? – a resposta é claramente percebida se levarmos em consideração a pequena extensão do território israelita e como a possessão exclusiva de terra nas mãos de poucos poderia levar à miséria, pobreza e desapropriação de muitos. A razão final desta ordem divina era estabilizar e controlar a economia do povo israelita.

Assim, o Ano do Jubileu regularia toda a economia da sociedade judaica, impedindo que uns enriquecessem muito e outros empobrecessem muito, mas garantindo a dinâmica econômica que qualquer nação emergente precisa ter (Lv 25.24-34).

Um povo explorado por pessoas gananciosas, com maioria pobre e uma minoria concentrando renda é contra os padrões bíblicos divinos. A ordem de Deus é a circulação da riqueza, por meio do trabalho, empregos e desenvolvimento social – o que o povo israelita não havia respeitado, e agora estava sendo julgado por Deus por acumular riquezas para uma minoria.

O problema, no entanto, não estava na compra de imóveis, mas na desobediência dos padrões econômicos legais, que organizavam a sociedade. Miqueias também denuncia a injustiça da expropriação de terras (Mq 2.1-2) e as palavras de Isaías apontam para o acúmulo permanente de terras que precisariam ser de usufruto de outros.

Vejamos o que profetizou o profeta menor Miqueias, naquele mesmo tempo:

“Ai daqueles que, no seu leito, imaginam a iniquidade e maquinam o mal! À luz da alva, o praticam, porque o poder está em suas mãos. Se cobiçam campos, os arrebatam; se casas, as tomam; assim, fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança”

É notório o controle divino contra a exploração, se levarmos analogicamente o mesmo princípio aqui em discussão às leis de servos e senhores. Que dizia que, ainda que um homem se tornasse um servo (escravo) em razão de suas dívidas (empobrecimento), não poderia ser assim mantido perpetuamente, deveria ser libertado após um prazo legal, subentendendo-se que teria pago o que era devido ao seu credor, através de seu trabalho e também deveria, durante esse tempo, ser tratado com dignidade juntamente com sua família (Ex. 21.2).

Nesse sentido, o monopólio ganancioso não é aceito por Deus, por significar a exploração e a opressão da qual havia libertado o povo de Israel do Egito. Numa sociedade rural, como a israelita, o monopólio da terra significa o domínio dos meios de produção que é o sustento da maioria da população, revelando-se, pois, seu caráter maléfico.

Concluímos, então, que, com a determinação contra a ganância dos poderosos por acumularem posses em detrimento de toda a população, Deus não está condenando o investimento imobiliário e financeiro, mas a conduta que muitos especuladores assumem, qual seja: o ato de privar pessoas do direito à moradia, ao trabalho, e ainda o ato diabólico de se beneficiar do pobre por meio de altas taxas de juros e aluguéis abusivos.

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