#03 A doutrina Arminiana acerca da Salvação

3.1. A vida de Jacob Armínio

Jacob Armínio

Estamos aprendendo a doutrina da salvação, conforme resumida na primeira aula (clique aqui para ler). Na última aula apontamos os erros da doutrina calvinista acerca da salvação, e biblicamente demonstramos ponto a ponto os erros que os calvinistas cometem em sua tentativa de explicar o processo da salvação pela “predestinação individual para salvação e para perdição”.

Quando a Europa foi tomada pela doutrina calvinista, Deus levantou um pastor chamado Jacó Armínio (Jacobus Arminius, 1560-1609), que se contrapôs à doutrina da “graça irresistível” de Calvino, defendendo biblicamente a “graça preveniente” ou “graça preparatória”, que ensina que a vontade do homem é essencial no processo de salvação, em cooperação com o chamado de Deus.

Igreja em Amsterdã

Sendo Holandês, nasceu em um momento que que seu país estava sendo tomado pela doutrina calvinista, que fortemente investia em conflitos políticos para libertar a Holanda do domínio da Espanha. Nesse contexto foi formado e ordenado ao ministério assumindo a Igreja Reformada de Amsterdã como pastor em 1587, aos 27 anos de idade.

O primeiro ponto que chocava Armínio, e contra a qual ele fazia oposição aberta, era o ensino do suplalapsarianismo pelos calvinistas, o que ele atacava veementemente em suas pregações, causando um alvoroço entre a maioria calvinista na época.

Após isso, também passou a pregar contra a “eleição incondicional” e a “graça irresistível”, pois defendeu a literalidade do texto de Romanos 9, segundo o qual é a Igreja a predestinada à salvação e não indivíduos específicos, sendo a “predestinação” corporativa e não individual. Ou seja, se é salvo porque é Igreja, está unido à noiva de Cristo, fora dela não há salvação. (A Igreja é a grande embarcação dirigida por Cristo com destino ao Céu, quem nela embarca, será salvo)

Em meados de 1603 de levantou um teólogo radicalmente calvinista que colocou a população em polvorosa contra Armínio. Francisco Gomaro, dizia que Calvino era jesuíta e socianista. E o que é pior, caluniava Armínio, dizendo que ele negava a salvação pela graça mediante a fé em Cristo, conforme fundamentado pela Reforma Protestante.

Francisco Gomaro

Assim, a distorções feitas por Gomaro, influenciaram negativamente a opinião pública contra Armínio, que fez com que houvesse uma perseguição e uma guerra civil em 1604, nas províncias dos Países Baixos (Holanda). Armínio foi publicamente acusado de herege.

Armínio faleceu de tuberculose cinco anos depois, em 1609, sendo injustiçado até os dias de hoje, pois ainda é taxado de “semipelagianista” pelos calvinistas mais radicais, o que não é realidade.

Nos debates que continuaram, Armínio foi sucedido por Konrad Vorstius, que derrotou Gomaro com argumentos bíblicos, sendo que Gomaro utilizava-se da política e das ofensas públicas contra os remonstrantes (alunos de Armínio – veremos na próxima aula).

Placa dos alunos da Universidade de Leiden, em homenagem ao professor Jacob Armínio

3.2. O ponto central da divergência entre a doutrina de Armínio e de Calvino (presciência x soberania)

Como já vimos, os calvinistas são deterministas. Utilizando-se peremptoriamente da doutrina dos decretos afirmam que tudo o que ocorre foi decretado por Deus não havendo nada que o homem pudesse fazer. A isso chamam de “Soberania Divina”.

Portanto, se Deus é quem decreta quem será salvo e quem será condenado é porque Ele é soberano, e, segundo os calvinistas, dizer o contrário (que Deus não escolhe quem irá para o céu ou quem irá para o inferno) seria o mesmo que negar a “soberania” de Deus.

Em sentido inverso, Armínio se opunha ao ensino Calvinista, pois afirmava que muitas coisas eram decretadas por Deus, mas não todas as coisas, visto que se Deus decreta o cometimento de pecados, seria ele o responsável pelo mal no mundo.

Portanto, Armínio ensinava que Deus  decretou o plano da salvação, antes da fundação do mundo, por meio de Jesus Cristo, nomeando-o eternamente mediador, redentor, salvador, sacerdote e rei, decretou consequentemente que quem se arrependesse e cresse em Jesus Cristo seria salvo se firme continuassem até o fim, todavia os incrédulos seriam condenados. Deus teria decretado também o modo (as condições) necessárias para a suficiência e eficaz salvação sob o fundamento do arrependimento e da fé.

O último ponto do ensino de Armínio contra os “decretos totalitários” calvinistas, era o que alinhava todo seu ensinamento: defendia que Deus decretou, sim, a salvação ou a perdição de pessoas, mas não pelo dedo “tirano” de escolher previamente quem seria ou não salvo (ao que eles erroneamente chamam de “soberania” que é mais uma “tirania”), mas, sim, elege (escolhe) os salvos pela sua “presciência” sabendo que responderia ao chamado da salvação (graça), por intermédio da fé semeada pela pregação do evangelho, tendo dado todos os que creem previamente a Jesus, pela sua onisciência.

É o que está escrito na carta de 1 Pedro 1.2:

Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” 1 Pedro 1:2

Isso porque a soberania não é um atributo absoluto, ou seja, Deus não pode utilizá-la a todo momento, sob pena de subverter sua própria Justiça. Paulo em 1 Timóteo 2:13, deixa muito claro que Deus não pode negar a fidelidade à sua própria Justiça, pois seria negar-se a si mesmo.

O cerne da doutrina de Armínio acerca da salvação está muito bem sintetizado nas palavras do teólogo Roger Olson:

“É importante lembrar que Armínio insistia que toda a questão da predestinação estava relacionada à condição caída dos seres humanos carentes da redenção. Para Armínio, o decreto divino de permitir a queda, em outras palavras, não dizia respeito à salvação. Os decretos de Deus a respeito da salvação vêm depois (são logicamente posteriores) da permissão divina da queda de Adão e de Eva. Como Armínio concebia a queda? Deixou isso claro em seu tratado Certos artigos a serem diligentemente examinados e ponderados: “Adão não caiu por decreto de Deus, nem por estar destinado a cair, nem por ter sido deserdado por Deus, mas por mera permissão de Deus, que não está subordinada a nenhuma predestinação, nem à salvação ou à morte, mas que pertence à providência, que é distinta e oposta à predestinação” (in OLSON, Roger. 1999. P. 479 apud Works of James Arminius. 1695. P. 653,654, apud BRUNELLI, Walter, Teologia para pentecostais, Vol. 3, 2016, p. 266)

Esta doutrina Arminiana é encontrada em muitos grupos diversificados hoje: luteranos, metodistas, episcopais, anglicanos, pentecostais, batistas do livre-arbítrio e muitos carismáticos e crentes do movimento holiness. (Op. Cit.)

Próxima Aula: #04 Arminianismo: os cinco pontos dos remonstrantes FACTS e o vergonhoso Sínodo de Dort

Sínodo de Dort

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