#04 Arminianismo: FACTS – os cinco artigos dos remonstrantes e o vergonhoso Sínodo de Dort

Após o falecimento de Armínio em 1609, quarenta e seis de seus seguidores se reuniram na cidade de Haia, na Holanda, e formalizaram um documento chamado “Remonstrância”.

Estamos em nossa quarta aula sobre a Doutrina da Salvação, onde pontuamos os erros da doutrina calvinista (leia aqui), e iniciamos o estudo da doutrina arminiana sobre a salvação (leia aqui).

Quem eram os Remonstrantes

Estamos agora diante de um cenário triste do início do século XVII, onde, após o falecimento de Armínio em 1609, quarenta e seis de seus seguidores se reuniram na cidade de Haia, na Holanda, e formalizaram um documento chamado “Remonstrância”.

Entre os remonstrantes estavam grandes nomes da filosofia e do direito como Simon Episcopius (1583-1643) e o conhecido jurista Hugo Grócio (1583-1645).

O termo Remonstrância vem de “remonstrar” que significa, por intermédio de argumentos, tornar evidente uma situação.

O documento dos Remonstrantes

A remonstrância, documento dos remonstrantes, foi resumida em 5 (cinco) pontos, assim como os cinco pontos do calvinismo, de forma a refutá-los biblicamente.

Apenas para relembrar, os cinco pontos do calvinismo formam o acróstico T.U.L.I.P.:

  1. Total Depravity (Depravação Total); – o homem é incapaz de por si mesmo ir a Deus.
  2. Unconditional Election (Eleição incondicional); – Deus faria a escolha de quem será ou não salvo, independente das atitudes humanas.
  3. Limited Atonement (Expiação limitada); – Jesus não teria morrido por todas as pessoas.
  4. Irresistible Grace (Graça Irresistível); – Aquele que é “eleito” viria para a salvação de qualquer maneira, independente de suas próprias decisões.
  5. Perseverance of Saints (Perseverança dos Santos); – Seria impossível para um “eleito” perder a salvação.

Enquanto os cinco pontos dos remonstrantes formam o acróstico F.A.C.T.S., que na língua inglesa traduzido livremente significa FATOS:

  1. Free by grace to believe (Livres pela graça para crer), onde há graça há liberdade para crer ou não crer. É a expressão da graça preveniente.
  2. Atonement for all: (Expiação Ilimitada); Jesus morreu por todas as pessoas.
  3. Condicional Election (Eleição Condicional); existem condições para a salvação disponíveis para todos os homens: arrependimento, fé e confissão.
  4. Total Depravity (Depravação Total); o homem por si mesmo não é capaz de chegar a Deus, apenas diante das revelações disponíveis pela graça.
  5. Security in Christ (Segurança em Cristo); perseverar é estar seguro em Cristo, em constante arrependimento e santificação, fora dEle não há salvação.

Os cinco artigos dos Remonstrantes

*Artigo I – Que Deus, por um eterno e imutável plano em Jesus Cristo, seu Filho, antes que fossem postos os fundamentos do mundo, determinou salvar, de entre a raça humana que tinha caído no pecado – em Cristo, por causa de Cristo e através de Cristo – aqueles que, pela graça do Santo Espírito, crerem neste seu Filho e que, pela mesma graça, perseverarem na mesma fé e obediência de fé até o fim; e, por outro lado, deixar sob o pecado e a ira os contumazes e descrentes, condenando-os como alheios a Cristo, segundo a palavra do Evangelho de Jo 3.36 e outras passagens da Escritura.

Este primeiro artigo revela a Salvação Condicional. As condições resumidas impostas por Deus são “crer no Filho, e perseverar em obediência”. Para ser condenado basta não crer no Filho e permanecer desobediente à Deus, permanecendo ou voltando à vida pecaminosa, que torna o homem e a mulher alheios a Cristo.

*Artigo II – Que, em concordância com isso, Jesus Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todos e cada um dos homens, de modo que obteve para todos, por sua morte na cruz, reconciliação e remissão dos pecados; contudo, de tal modo que ninguém é participante desta remissão senão os crentes. João 3:16

O segundo artigo é o ponto denominado Expiação Ilimitada, que afirma, biblicamente, que a morte de Cristo na Cruz do Calvário é para todos os homens, porém, deixa claro que só pode fazer parte deste perdão aqueles que crerem e aceitarem este perdão concedido pelo preço de sangue.

*Artigo III – Que o homem não possui por si mesmo graça salvadora, nem as obras de sua própria vontade, de modo que, em seu estado de apostasia e pecado para si mesmo e por si mesmo, não pode pensar nada que seja bom – nada, a saber, que seja verdadeiramente bom, tal como a fé que salva antes de qualquer outra coisa. Mas que é necessário que, por Deus em Cristo e através de seu Santo Espírito, seja gerado de novo e renovado em entendimento, afeições e vontade e em todas as suas faculdades, para que seja capacitado a entender, pensar, querer e praticar o que é verdadeiramente bom, segundo a Palavra de Deus [Jo 15.5].

O terceiro ponto demonstra a concordância entre calvinistas e arminianos acerca da Depravação Total, ou seja, que tudo é pela graça. O homem por si mesmo não pode pensar nada de bom, nem fazer o bem, pois apenas pela graça, revelada nas Escrituras e pelo poder do Espírito Santo de Deus, o homem pode ser convencido de seu pecado.

*Artigo IV – Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou preveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo.

Aqui no artigo quarto do documento dos remonstrantes, foi afirmada a Livres pela graça para crer, demonstrando que a graça de Deus sempre esteve, por meio de Cristo, à disposição dos homens, até mesmo o homem transformado continua a depender desta graça para continuar firme em Jesus, pois ela desperta, assiste e coopera.

Este ponto afirma ainda que a graça não é irresistível, pois há muitos textos bíblicos acerca de homens que resistiram ao Espírito Santo.

*Artigo V – Que aqueles que são enxertados em Cristo por uma verdadeira fé, e que assim foram feitos participantes de seu vivificante Espírito, são abundantemente dotados de poder para lutar contra Satã, o pecado, o mundo e sua própria carne, e de ganhar a vitória; sempre – bem entendido – com o auxílio da graça do Espírito Santo, com a assistência de Jesus Cristo em todas as suas tentações, através de seu Espírito; o qual estende para eles suas mãos e (tão somente sob a condição de que eles estejam preparados para a luta, que peçam seu auxílio e não deixar de ajudar-se a si mesmos) os impele e sustenta, de modo que, por nenhum engano ou violência de Satã, sejam transviados ou tirados das mãos de Cristo [Jo 10.28]. Mas quanto à questão se eles não são capazes de, por preguiça e negligência, esquecer o início de sua vida em Cristo e de novamente abraçar o presente mundo, de modo a se afastarem da santa doutrina que uma vez lhes foi entregue, de perder a sua boa consciência e de negligenciar a graça – isto deve ser assunto de uma pesquisa mais acurada nas Santas Escrituras antes que possamos ensiná-lo com inteira segurança.

Aqui o ponto mais sensível, este quinto artigo demonstra a Segurança em Cristo, cautelosamente descrito pelos remonstrantes, afirmaram que aqueles que estão em Cristo, estão seguros para lutar contra as ciladas do diabo, o mundo e a carne e ter vitória, podendo contar com o auxílio de Jesus Cristo em todos os momentos.

Contudo, quanto à questão de voltarem à vida pecaminosa, se afastando de Cristo e retornando aos caminhos do Senhor, ou seja, o modo de funcionamento da queda da graça (perda da salvação), não é tão simples de ser explicado, devendo ser analisado caso a caso, com base nas Escrituras para que possa ser ensinado com maior segurança.

Estes são os pontos dos remonstrantes, resumidos no documento F.A.C.T.S.  detalhadamente explicado com amparo no texto das Sagradas Escrituras, o que o tornava, diante da comunidade protestante holandesa irretocáveis.

Contudo, o calvinismo servia como exclusivismo religioso, já tinha se tornado não uma doutrina, mas uma verdadeira política de Estado, o que levou à condenação de ministros arminianos/remonstrantes pelo Sínodo de Dort.

O Sínodo de Dort

Sínodo de Dort – 1618 d.C.

Como vimos no estudo sobre a História da Igreja, Lutero não queria fundar uma nova igreja, queria apenas reformar a igreja. Já Calvino queria uma nova igreja e entraram em grande atrito em razão disso.

Portanto, na época o Calvinismo era utilizado fortemente como uma diferenciação de uma “nova igreja” em relação à antiga igreja que Lutero pretendida reformar.

O surgimento das posições dos remonstrantes, que revelava erros na doutrina calvinista no ponto da doutrina da salvação, mexeu em um ponto que não era religioso, mas, sim, político.

Conforme ensina o Pr. Walter Brunelli:

“A doutrina calvinista servia como escudo para a Holanda contra a Igreja da qual ela havia se libertado, sobretudo, por se tratar do poder religioso que subjugava a Espanha, país que antes a dominava. Entretanto, os arminianos opunham-se à teologia de Calvino, alegando que Jesus morreu por todos e que a salvação não era restrita somente a alguns, mas era oferecida a todos igualmente. Armínio diferia de Calvino em questões soteriológicas, e isso ele não escondeu” (Teologia Para Pentecostais, Vol. 3 – Ed. Central Gospel, 2016, p. 269)

Assim, visando condenar o documento dos remonstrantes, instalou um grande Sínodo (concílio), na cidade de Dordrecht, na Holanda, que durou de 1618 a 1619, onde estiveram em inúmeras sessões de discussões, teólogos eruditos, o rei da Inglaterra Tiago, Condes de diversas Repúblicas reformadas (Suíça, Genebra, França, etc).

De todos os inúmeros teólogos e políticos participantes, apenas 13 (treze) remonstrantes foram chamados, liderados por Simon Episcopus, porém ficaram trancafiados em uma sala, sem poder participar das sessões, nem mesmo direito a assento tiveram, ficavam em pé o tempo todo.

Apenas na vigésima segunda sessão foram chamados para defender a doutrina da salvação ensinada por armínio, que foi atacada por 102 calvinistas que estavam no plenário. O triunfo dos calvinistas foi absoluto.

Os remonstrantes foram expulsos do sínodo, aos gritos pelo teólogo calvinista John Borgerman, que os declarou hereges (calúnia), que ainda defendia a pena de morte aos arminianos.

Após o sínodo diversos arminianos/remonstrantes foram presos, destituídos das igrejas, banidos por não se calarem contra o calvinismo. O presbítero e jurista Hugo Grócio foi confinado em uma masmorra.

Todavia, anos mais tarde surgiu um homem chamado Frederick Henry, que permitir que os arminianos retomassem seus postos, e por toda a Holanda foram restabelecidas as igrejas remonstrantes e criaram também uma universidade.

Henry foi sucessor de Mauricio de Nassau, o famoso “o Brasileiro”, conde alemão-holandês, que governou a colônia holandesa no Recife/PE em 1637.

Próxima aula: A Mecânica da Salvação.

Autor: Rafael J. Dias

Pastor na Assembleia de Deus Ministério de Santos, advogado, escritor e ativista pelos direitos sociais. Formado em Direito pela Universidade Católica de Santos e em Teologia pelo IBAD. Especialista em Direito da Administração Pública pela Estácio. Pós-graduando em Liderança Pastoral pela FABAD.

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