#06 – A Justificação

A justificação é uma das doutrinas mais importantes da Bíblia, o fundamento do processo da salvação, por meio dela entendemos como fomos reconciliados com Deus (Rm 5.10).

Foi esta doutrina que fez com que Martinho Lutero no séc. XVI desafiasse os doutrinadores da Igreja de sua época, que condicionava o perdão de Deus ao pagamento de indulgências.

A Justificação pela Fé foi a base da reforma protestante, visto que é através dela que podemos entender a gratuidade do evangelho e como não somos merecedores da graça de Deus, recebendo a salvação gratuita e unicamente pela Fé, pois Cristo nos justificou pela sua morte e ressurreição (preço que não podemos pagar).

6.1. O que é Justificação?

Justificação é um ato da graça de Deus, pelo qual Ele imputa à pessoa que crê em Jesus a justiça de Cristo, declarando-a justa.

Pela justificação, Deus trata o homem arrependido através dos méritos da pessoa de seu Mediador, Jesus Cristo.

Portanto, a justificação é uma posição jurídica do homem perante Deus. Isto é, Deus é justo, a justiça é a base de seu trono e denota sua santidade (Salmos 89.14). Assim, o homem jamais seria capaz de cumprir a justiça. Deus se fez homem e habitou entre nós, e cumpriu toda a justiça, morrendo em nosso lugar (Rm 5.10).

Logo, por este ato de justiça, todos fomos feitos participantes da glória do Filho, pela fé. (1 Pe. 4:13)

6.2. Por que o homem e a mulher precisam ser justificados?

A Bíblia é enfática em dizer: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm. 3.23).

Assim:

  • todos são culpados (Rm. 3.9),
  • ninguém é justo (Rm 3.10; Jó 25.4)
  • todos os pecados estão escritos no livro de Deus (Ap. 20.12)
  • e registrados na sua consciência (Jr 17.1).

O resultado só pode ser um: todos estão debaixo da condenação (Rm 3.10, 2.2,3; 1 Tm 5.24).

Isso porque, nenhum homem ou mulher tem condições próprias para livrar-se da sua culpa. Adão e Eva tentaram esconder a vergonha de terem pecado, mas isso não resolveu o problema diante de Deus (Gn 4.3; Is 64.6).

Boas obras não justificam o indivíduo diante de Deus (Gl. 2.16; Ef. 2.8,9). Os fariseus buscavam se justificar por meio de suas próprias obras, mostrando publicamente que cumpriam à risca a lei, mas isso não era suficiente (Mt. 5.20; Lc. 18.14).

Não existe ser algum em todo o universo que tenha condições de justificar o homem diante de Deus. Por isso todas as religiões, em todo o mundo, que procuram justificar o homem diante de Deus por obras são falhas; não produzem justificação.

Diante dessa situação triste e desesperadora, o homem pergunta: “Quem me livrará o corpo desta morte?” (Rm 7.24) e: “Como se justificaria o homem para com Deus?” (Jó 9.2).

A própria Palavra de Deus responde: “Esta é a herança dos servos do Senhor e a sua justiça que vem de mim, diz o Senhor” (Is 54.17).

6.3. Cristo é a nossa Justiça

6.3.1. A Justiça de Deus é perfeita e imutável

Deus jamais pode usar “dois pesos e duas medidas”. Ele feriria a sua justiça caso perdoasse ao pecador sem um meio eficaz de perdão, porque disse: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

6.3.2. Deus providenciou um sacrifício perfeito

Deus então, no seu grande amor, providenciou o sacrifício de seu próprio Filho para, por esse ato, satisfazer a justa exigência da justiça divina (Jo 3.16).

Isso foi possível porque:

  • Jesus, para ser mediador entre Deus e os homens, tinha de ser homem (Fp. 2.6-8; Hb 2.14).
  • Jesus tinha de tomar sobre si a culpa dos homens. A tremenda dívida na conta humana diante de Deus tinha de ser transferida para a conta de Jesus. Foi por isso que Jesus se tornou devedor diante da lei de Deus. A Bíblia diz que Ele foi feito pecado por nós (2 Co. 5.21) e até tornou-se maldição por nós (Gl. 3.13). Isso aconteceu quando Ele, no Getsêmani, tomou o cálice que continha a nossa culpa (Lc. 22.42).
  • Jesus morreu cumprindo a sentença que nossos pecados mereciam. O justo morreu pelos injustos (1 Pe 3.18). Ele levou as nossas transgressões (Is 53.10,4,5,). Aniquilou-se o nosso pecado pelo seu sacrifício, o sacrifício de si mesmo (Hb 9.26; Ef 5.2), e proporcionou, assim, condições para a remissão dos nossos pecados e para nossa justificação.

6.3.3. Jesus tornou-se a nossa Justiça (Jr 23.6)

Ele é a nossa justiça porque tudo o que fez, fez por nós, em nosso favor, como o nosso substituto diante de Deus e da Lei. A Bíblia diz que “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para a nossa justificação” (Rm 4.24,25).

Quando Jesus verteu o seu sangue nesse sacrifício inigualável, abriu-se a fonte da graça para a justificação de todo aquele que nEle crê (Rm 5.9; 1 Pe 1.18,19; Cl 1.20).

6.4. Todos os que agora Crêem “estão em Cristo” (Rm 8.1; 2 Co 5.17)

E é por essa aceitação que são declarados justos, porque Jesus é a sua justiça (Jr 23.6). Quando Deus olha para o crente, Ele o vê através da pessoa de Jesus, na qual todos somos feitos justiça de Deus (2 Co 5.21).

Pela conta credora de Jesus (que não se esgota) foi feito o pagamento do nosso débito, que agora já não mais existe. Assim, o crente pode, vestido do manto da justiça de Jesus (Is 61.10), apresentar-se diante de Deus justificado.

6.5. Passos para a justificação

6.5.1. O caminho da justificação

A Bíblia mostra o caminho da justificação ao afirmar: “Justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue” (Rm 3.24,25).

A justificação é oferecida por Deus pela sua graça (favor imerecido), que Ele agora pode mostrar, por causa da redenção efetuada por Jesus, que remiu o homem vertendo o seu precioso sangue.

Deus agora apresenta Jesus como único meio da justificação e todo aquele que crer no seu sangue, isto é, que aceitar o sacrifício feito por Jesus em seu próprio favor, é justificado, ou seja, declarado justo diante de Deus.

6.5.2. Esse caminho da justificação é único

É o único caminho para grandes e pequenos, para ricos e pobres, para dirigentes e dirigidos! A todos quantos queiram ser justificados, lhes é imposta uma só condição: crer no valor do sangue de Jesus para perdoar e para justificar (Rm 3.25).

6.5.3. Esse caminho não admite vanglória

A fé com a qual o homem crê no sangue justificador de Jesus não constitui nenhum mérito. Representa apenas a aceitação da graça, isto é, do meio que Deus oferece para a nossa justificação (Rm 4.5, 21; At 13.39).

A fé exclui as obras e, assim, não deixa nenhum lugar para a arrogância (Rm 3.27), pois o homem é justificado pela fé sem obras (Rm 3.28; Gl 2.16).

Se a nossa justificação dependesse das obras, ninguém se salvaria, pois nenhum homem conseguiu cumprir a lei. Assim, permaneceríamos todos debaixo da maldição (Gl 3.10).

Quando Tiago escreveu “que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé” (Tg 2.24) não estava contradizendo Paulo, mas completando o pensamento deste. Tiago mostra que a verdadeira fé sempre é acompanhada pelas obras (que são um resultado da fé) e que a fé sem obras é morta.

Ainda, segundo Tiago, a fé sem obras, consequentemente, nada obtém de Deus (Tg 2.14-22). As obras que acompanham a fé são chamadas de “frutos da justiça” (2 Co 9.10), constituindo-se em evidência de que uma fé viva opera na vida daqueles que as praticam.

6.6. Os resultados da justificação na vida do homem

São muitos e maravilhosos os resultados da justificação em nossas vidas. Devemos avançar para que desfrutemos de tudo aquilo que Deus preparou para os justificados pela sua graça.

6.6.1. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus” (Rm. 5.1)

Essa paz não é somente um sentimento agradável de sossego e tranquilidade, mas é como um estado de “pós-guerra”, quando a beligerância cessa e as relações interrompidas são reatadas. O homem que vive em pecado está separado de Deus (Is 59.2) e debaixo de sua ira (Ef. 2.3).

Quando é declarado justo, entra em um estado de paz com Deus, experimentando harmonia com a divindade, pois passa a ter livre acesso a Deus (Ef. 2.18; Rm 5.2).

6.6.2. “Temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes” (Rm 5.2.)

As bênçãos que acompanham a permanência na graça são grandes. Os crentes crescem na graça (2 Pe 3.18) e essa se manifesta de muitas maneiras para o enriquecimento da vida espiritual dos servos do Senhor.

Veja algumas dessas bênçãos:

  • “Nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Rm 5.2.). Para os que são “declarados justos”, Deus concede a alegria de participar da sua glória. É uma bênção que eleva os nossos corações às coisas que são de cima (Cl 3.1-3; 1 Ts 1.9,10; Tt 2.13).
  • “Nos gloriamos nas tribulações” (Rm 5.3.). Os sofrimentos que aparecem na vida não abaterão o crente, pois a alegria que Deus lhe deu com a justificação opera nele e é a sua força (Ne 8.10). Em lugar de gemer, se alegra, pois para o crente a tribulação produz paciência, experiência e esperança (Rm 5.3-5).
  • A graça, na vida do justo, constitui também uma certeza da presença do Espírito Santo que derrama o amor de Deus em seu coração (Rm 5.5.). Assim, com a fé e o amor que há em Cristo, a graça transborda (1 Tm 1.14). É bem verdade que “bênçãos há sobre a cabeça do justo” (Pv 10.6). Assim, “todos nós recebemos também da sua plenitude, com graça sobre graça” (Jo 1.16).

6.6.3. A Justiça torna o crente ousadamente inabalável (Rm 8.21-29)

A graça de Deus opera no crente tornando manifestas as seguintes declarações da Palavra de Deus:

  • “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31)
  • “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes, o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8.32)
  • “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).
  • “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia: fomos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” (Rm 8.35-37).

6.6.4. A Justiça é acompanhada de frutos (Fp 1.11; Pv 12.17)

Isso significa que a justiça é posta em prática e opera na maneira de viver do crente (Hb 11.33; 1 Jo 2.29; 1 Ts 2.10).

As obras justas que o crente pratica estão diante dos olhos do povo (Mt 5.16; 1 Pe 2.12,15). Elas são prova de que “Cristo vive em mim” (Gl 2.20; 2 Co 4.10,11).

6.6.5. O caminho dos justos é sempre aperfeiçoado

“A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” (Pv 4.18), pois aquele que é justificado tem um perpétuo fundamento (Pv 10.25) e não se abala (Pv 10:30), pois tem segurança (Is 32.17).

O Reio de Deus é justiça (Rm 14.17), pelo que o crente é vestido com o “linho fino” da justiça dos santos (Ap 19.7,8). Por isso o justo alegra-se esperando a vinda de Jesus, que é a nossa justiça (Jr 23.6).

E é pelo poderoso sangue do Cordeiro, que nos purificou, que entraremos na sua glória (Ap 7.14; 22.14) e seremos coroados com a coroa da justiça (2 Tm 4.8).

Próxima aula: #07 – Regeneração

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