#09 – A Glorificação

A glorificação é o destino do salvo, que andou nos caminhos do Senhor, buscando a santificação em sua vida e recebeu a plenitude da santidade (Hb. 12.23). Entretanto, a vida do salvo glorifica a Deus e isso faz com que o crente possa desfrutar de aspectos da glorificação ainda nesta vida.

Antes de falarmos da glorificação, é necessário abordarmos pontos necessários da vida do salvo. Visto que ninguém entrará no céu de qualquer maneira. Ainda que a pessoa aceite a Jesus em seu leito de morte, deverá demonstrar genuíno arrependimento e sua glorificação terá restrições, como veremos adiante.

A vida do salvo – peregrinando para a glorificação

Ninguém nos dias de hoje quer ouvir sobre a condenação, pois ouvir sobre a condenação é ouvir sobre o inferno. E sem falar na realidade do inferno não é possível entender a salvação. Hoje o que mais as pessoas querem é ouvir acerca da cura divina e da prosperidade financeira, tornando a palavra da redenção um aspecto secundário.

É necessário que a pregação do evangelho exponha a vida pecaminosa para que haja um confronto entre o “estado de trevas” do pecador com a luz do evangelho (Jo. 3.19). Contudo, para que a pregação atinja seu resultado é necessário haver coerência entre o discurso e a prática.

A Igreja deve refletir ao mundo o que prega, vivendo genuinamente como salvos peregrinando para seu destino, que é a glorificação eterna. Como alguém quererá ir, ou será impactado e contemplará seu pecado, se não houver luz e quem divulga a realidade da condenação e da salvação?

O anúncio do evangelho deve refletir o alto padrão exigido para a vida do salvo. (Mt 5.48) Se houver receio de demonstrar a realidade do céu e do inferno, não há verdadeira exposição do evangelho.

Como vimos na aula anterior (santificação), está no caminho para a glorificação, aquele que busca a santidade, não o santarrão, mas aquele que é puro na mente, nos olhos, na fala e honesto nas relações sociais, evitando envergonhar o evangelho. (Mt 18.7; Mt 5.29, 30)

Não há qualquer peregrinação para a glorificação eterna em uma vida de murmuração, contendas, e verdadeira mistura com os comportamentos mundanos. É necessário refletir o brilho da glória de Deus para sermos considerados irrepreensíveis e separados do mundo (Fp 2.14, 15).

Portanto, a glorificação inicia-se aqui mesmo, através do testemunho dos crentes, pois depois de o crente ter passado pelo processo da salvação (justificação, regeneração e santificação), passa a refletir algo especial, a transformação real, visível, uma mudança verdadeira. Deus é glorificado através da vida dos crentes transformados (Mt 5.16;).

Aspectos de uma vida de glória

Como visto, a vida do salvo reflete a glória de Deus, e já experimenta as coisas de Deus aqui na terra, pelo cumprimento do sobrenatural (Mt 6.10).

Reflete a liberdade em Cristo

O crente não é escravo das coisas do mundo. Ao contrário do que o mundo acha, não é uma vida de abstinências infelizes, mas uma vida que reflete a verdadeira alegria e liberdade em Jesus (Jo 8.36).

Somos livres do poder do mundo

Ao contrário do que muitos acham, os vícios, as maldades, a corrupção, a desonestidade, a mentira, não são frutos da liberdade, mas da escravidão do pecado. O homem tem a natureza pecaminosa em si, e em si mesmo não tem forças para se libertar (Jo. 8.34).

Contudo, a salvação em Cristo nos fez livres do poder do pecado que domina o mundo, pois nos tornamos seres de outro lugar (Jo 15.19). O mundo passará, porém o salvo permanecerá para sempre (1 Jo 2.17). 

Somos livres do poder da carne

As paixões carnais não mais prevalecem na vida do crente (Gl 5.19-21). Embora o salvo ainda lute diariamente contra a carte, recebeu o poder de resistir, basta andar em Espírito (Gl. 5.16).

Somos livres do poder do diabo

O diabo vem para matar, roubar e destruir (Jo 10.10), mas não tem poder na vida do salvo, pois ele é revestido das armaduras de Deus (Ef 6.10-17).

Refletimos o caráter de Cristo

Dizer que “têm Jesus no coração” não é o suficiente. É necessário andar com Ele, se parecer com Ele. Ter o Espírito de Cristo é fazer parte de sua noiva (Rm 8.9).

Temos uma vida no Espírito

Demonstramos, de maneira natural e voluntária o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança (Gl 5.22).

Temos uma vida justa

Assim como os fariseus tentavam encontrar defeitos em Jesus e não encontravam, assim devemos ser, vivendo uma vida justa como a do nosso Senhor (Mt 5.48).

Temos uma vida honrada

O crente salvo: é honesto, paga suas contas, cumpre com sua palavra, é pontual em seus compromissos, não usa de mentiras a título de desculpas ou justificativas, não guarda pensamentos impuros, não vive de maledicência, ofensas e mau humor.

Não adianta se dizer espiritual, portador de dons (1 Co. 1.7) e se comportar como meninos (1 Co 3.1).

Servimos a obra de Deus com alegria

As boas obras na vida do salvo serão reconhecidas: (1) pela sua inclusão no Corpo de Cristo; (2) pela sua comunhão com os demais salvos; (3) pela adoração; (4) pelo testemunho; (5) pela evangelização; (6) pelo ministério do socorro; (7) pelo uso dos dons espirituais. (Ef. 2.10)

Fazemos parte do Corpo de Cristo

Todo salvo deve estar abrigado numa igreja local, sob a autoridade de um pastor (c), assumindo papel como membro do Corpo de Cristo e agindo em conformidade com os respectivos movimentos do Corpo (1 Co 12.27).

Temos comunhão uns com os outros

A comunhão dos salvos os tornam um em Cristo, e um testemunho vivo de que possuem o Espírito de Cristo (At 4.32; 1 Co. 1.10).

Somos verdadeiros adoradores

Vivemos em constante adoração ao Senhor em Espírito e em verdade (Jo 4.24).

Damos bom testemunho

Somos sal da terra e luz do mundo, nossa vida, por si só, é verdadeiro testemunho para todos os que nos veem e nos acompanham no dia a dia (Mt 5.13-16; Jo 15.8).

Evangelizamos com prazer e dedicação

Deus liberta para libertar. Os verdadeiramente salvos em Jesus não conseguem manter a mensagem do evangelho só para si, é inevitavelmente prazeroso divulgar as boas novas de Cristo, sendo uma incumbência dada pelo Senhor Jesus (Mt 28.18-20).

Somos cheios e revestidos do Poder pelos dons espirituais

A justificação e a regeneração são frutos do convencimento do Espírito Santo na vida do crente, que está como agente passivo no momento da conversão, momento em que passa a habitá-lo (1 Co 3.16), se estabelecendo como selo a fim de guarda-lo para o dia da redenção (2 Co 1.22; 5.5; Ef 1.4) – todo salvo possui essas dádivas.

Todavia, ao receber o Espírito Santo na conversão (Jo 14.17), o salvo passa a ter uma postura de agente ativo, passa a ter a possibilidade de fazer uso da presença do Espírito Santo na sua vida, adquirindo os dons espirituais (revestimento de poder), por meio da busca em oração, geralmente iniciado pelo batismo com o Espírito Santo (1 Co 12.31; Lc 11.5-13).

Temos uma vida de crescimento

2 Pedro 2.5 – o apóstolo Pedro nos propõe uma vida de crescimento diante de Deus.

“Acrescentai à vossa fé”:

  • A virtude – excelência moral.
  • A ciência – experiências espirituais.
  • A temperança – autocontrole.
  • A paciência – perseverança, saber esperar.
  • A piedade – reverência para com Deus.
  • O amor fraternal – amar uns aos outros.
  • A caridade – o amor de Deus.

Esse constante crescimento espiritual é uma trajetória de fé que faz com que os salvos se tornem pessoas ocupadas nas coisas que verdadeiramente importam, vivendo a glória de Deus e a esperança da glorificação eterna.

Quem apenas possui a esperança futura e não reflete a glória ainda aqui, não demonstrando interesse em avançar nas revelações de Deus aos salvos, é chamado pelo apóstolo Pedro de “cego” (1 Pe 1.10).

A glorificação eterna

O destino dos salvos é o céu!

Jesus foi nos preparar lugar (Jo 14), e nos deu a esperança de vermos a sua glória eterna (Jo 17.24).

Contudo, não vamos viver a glorificação de qualquer maneira.

Há uma diferença na glorificação eterna na vida do salvo que peregrinou de glória em glória (2 Co 3.18), pelos aspectos que vimos acima, e daqueles que em último momento aceitaram ao Senhor Jesus, sem a prática dos frutos da justiça.

O nosso fundamento é Jesus Cristo. E é necessário vivermos uma vida que demonstra que somos feitura do Senhor, e caminhamos nas suas boas obras (Ef 2.10).

Quando fomos chamados para viver a sua glória, deveremos manifestar o que edificamos no fundamento que é Jesus Cristo em nossas vidas. É o que o apóstolo Paulo nos ensina em 1 Co. 3.11,15.

A obra de cada um se manifestará

Por isso enfatizamos os aspectos da glorificação na vida do crente, pois na glorificação eterna, aquilo que produzimos/edificamos ao Senhor será manifestado pelo fogo.

O apóstolo Paulo se utiliza de pedras preciosas como o ouro, a prata e as demais menos nobres, para metaforizar aqueles que receberão galardão da parte de Deus. Em seguida, se utiliza de materiais que que se consomem, coo a madeira, o feno e a palha, para enfatizar aqueles que pouco produziram/edificaram nesta vida.

Aquele que nada produziu, ainda assim será salvo, como pelo fogo, porém, não receberá galardão.

Galardão é retribuição pelos serviços prestados, é recompensa dada por Deus pelas obras que praticamos em obediência à sua vontade. A Palavra diz que Cristo vem sem demora, e com Ele está o galardão para cada um segundo as suas obras (Ap 22:12).

A Palavra de Deus chama o galardão de diversos nomes como: prêmio da soberana vocação de Deus (Fp 3.14); coroa da justiça (2 Tm 4.8); coroa de glória (1 Pe 5.4); coroa da alegria (1 Ts 2.19,20); coroa da vida (Ap 2.10), coroa incorruptível (1 Co 9.25,27).

“Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa.” Apocalipse 3:11

#08 – A Santificação

A Santificação inicia-se juntamente com a justificação e a regeneração e encerra o processo da salvação na vida do crente, diferenciando-se da regeneração por seu aspecto de  continuidade (progressividade) na vida do crente.

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A santificação é aliada a um dos atributos comunicáveis de Deus, a saber: A Santidade. Por isso, a santificação tanto depende do esforço humano como da ação divina na vida do crente.

Desde o início o chamado de Deus para o seu povo é para que ele seja “santo”. (Lv. 11.44)

E esse sentido contínuo da santificação foi trazido pelos remanescentes pentecostais. Como estudamos durante o ensino acerca da História da Igreja, no século XX, um movimento denominado “holiness” (santidade), por meio de John Wesley e demais evangelistas, mantiveram o aspecto da purificação na vida e no culto de todo genuíno cristão.

Por isso nossa ênfase de enfatizar a necessidade de uma vida santificada ao Senhor.

1- O que é santificação?

Ser santo, grosso modo, é a vigilância do crente em relação às coisas do mundo e ao pecado. Do hebraico “qadhash”, deriva da raiz “qad”, que significa “cortar”, “separar”. No grego “hagios”, também significa “separar”.

Portanto, é de se ver que Deus quer um povo dedicado, separado, consagrado, ao serviço do Senhor, que é a vontade expressa do Senhor na palavra (Lc. 1.70; Ef. 3.5; 2 Pe 1.21).

A santidade não se refere individualmente aos homens, mas à consagração ao Senhor, no sentido ético (indicando uma atitude diante das coisas de Deus) ou à Igreja do Senhor (Ef. 1.4; 5.27; Cl 1.22).

Santificação (hagiasmos), portanto, indica um processo na vida do cristão que o mantém na direção da exigência ética do Senhor, de que o homem e a mulher devem estar se consagrando, vigiando, se separando de tudo o que é impuro, mundano e pecaminoso.

2- Origem da santificação

Como dito, a santificação advém de um dos atributos de Deus, só é possível buscar a santificação, porque vem de Deus o caráter santo que devemos desenvolver. (1 Pe 1.15)

Santificação é um ato, um comportamento contínuo, e indica a mortificação diária do velho homem. Não é um processo que ocorre da noite para o dia, ou de imediato, como a justificação e a regeneração, pois requer uma atitude constante do crente. (Rm 6.6; 1 Pe 3.18)

3- Efeitos da santificação

Efeito interior – a santificação não é aparência exterior, mas a pureza do coração, a limpeza de toda maldade e corrupção. É o fugir da aparência do mal. Demonstração externa de santificação que não seja verdadeira interiormente é falsa. Essa foi a principal das reprimendas de Jesus contra os fariseus (Mt 23.25; 2 Co 7.1)

Efeito exterior – é o testemunho da vida cristã genuína. Não existe verdade sem o bom testemunho (Mt 5.16; Is 8:20). O bom testemunho é natural, é espontâneo, sem fingimento, como faziam os fariseus, chamados por Jesus de hipócritas (Mt 23.13-17; 19, 23, 25-27, 29).

4- Processo de santificação

  • No ato da conversão: o processo de santificação inicia-se logo em conjunto com a justificação e a regeneração (1 Co 6.11). A partir de que houve a lavagem pela água do novo nascimento no Espírito, perdoados foram os pecados, agora surgem atitudes a serem tomadas de não mais recuar, não mais olhar para trás e se misturar novamente com o mundo e com as concupiscências da carne, agora se vive para Deus (Rm 6.14).
  • No dia a dia: a santificação é progressiva (1 Ts. 3.12; 4.1,9,10). O dever diário do crente é seguir a santificação (Hb 12.14). O homem quando se converte não se torna um ser divino, mas um ser com uma natureza dúplice, humana e divina regenerada pelo Senhor. Por isso o conflito com o pecado permanece na natureza humana, e a ordem é resistir (Rm 6.12,13; 2 Co. 3.18).
  • Até chegar no céu: durante a vida não existe mais santo ou menos santo. Ainda que a Bíblica exija perfeição (Gn 17.1; Mt 5.48; Ef. 4.13), referida perfeição não é absoluta, pois o homem não está isento de pecar (Pv. 20.9; 1 Jo 1.8). Apenas no céu ninguém sofrerá das aflições do pecado, lá seremos chamados de “justos aperfeiçoados” (Hb 12.23).

5- Ação divina e esforço humano

Dividamente a santificação é obra do Pai (1 Ts 5.23), do Filho (Ef 5.25,26), e do Espírito Santo (2 Ts. 2.13).

O lado humano na santificação compreende:

(a) A fé (Hb 11.6);

(b) A consagração do corpo (Rm 6.19);

(c) A sujeição à Palavra de Deus (Jo 17.17);

6- A santificação não é legalismo

É claramente possível que alguém cumpra toda a lei, todos os mandamentos do Senhor, na vida pública e na vida privada e não estar desenvolvendo a santificação.

Segundo ensina o Pr. Walter Brunelli:

“Há um perigo aqui: alguns colocam ênfase tão exagerada na santificação que, inconscientemente, apregoam a salvação pelo caráter – o que não deixa de ser uma forma de crença em salvação pelas obras. Isso é próprio do legalismo. Tal sistema sacrifica o amor cristão, induzindo o indivíduo a julgar as pessoas pela aparência desenvolvendo um tipo inconsciente de vaidade espiritual. A salvação age no caráter, mas apenas o caráter não a representa.” (2017, Vol 2, p. 368)

Apenas Deus sonda os corações e pode julgar a santificação, a vida verdadeiramente consagrada ao Senhor. Obviamente que há comportamentos que claramente não condizem com uma vida santificada. Contudo, uma vida sem tais comportamentos, por si só, não indica santificação espiritual.