A dispensação da promessa – parte 1

Na dispensação da promessa, após a dispersão dos homens sobre a face da terra o Senhor voltou seus olhos para um homem de fé, prometendo-lhe, contra a esperança, a paternidade de um povo e possessão de um território específico: uma nação que teria Deus como seu governo.

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Início, duração e término da dispensação

Esta dispensação teve início com a Aliança de Deus com Abraão, cerca de 1963 a.C., ou seja, 427 anos depois do Dilúvio. Sua duração foi de 430 anos (Gl 3.17; Hb 11.9,13).

Esta dispensação é também chamada por alguns eruditos como “A Dispensação Patriarcal”. Por meio dela, Abraão e seus descendentes vieram a ser herdeiros da promessa.

A dispensação da promessa se estende de Gênesis 12.1 a Êx 19.8, e era exclusivamente israelita. A dispensação, como meio de provar a Israel, somente terminou com a libertação do povo do Egito e o estabelecimento e aceitação da Lei de Deus no Sinai.

Ponto de partida – a escolha de Deus: um patriarca e um território.

Um grande povo só poderia começar com um grande homem da descendência dos Semitas e dos Hebreus (Gn 9.21, Gn 14.13). Abrão, antes de ter seu nome mudado por Deus para Abraão, residia com seu pai em uma cidade idólatra, chamada Ur dos Caldeus.

Abrão era filho de Terá e irmão de Naor e Harã, que é pai de Ló. Segundo a Palavra de Deus, Harã era o filho mais novo de Terá e até então era o único que tinha dado um neto para Terá. E assim que gerou Ló, Harã veio a falecer em Ur dos Caldeus (Gn 11.28).

Nem Abrão e nem Naor tinham ainda dado netos ao seu pai Terá, sendo os filhos mais velhos.

Ter um clã (família) forte era sinônimo de fertilidade, multiplicação, de honra, de prosperidade na cidade idólatra de Ur dos Caldeus que adoravam uma deusa chamada Inanna, da fecundidade e fertilidade.

Multiplicarem-se e encher a terra de descendentes, foi a ordem dada por Deus a toda a descendência de Noé (Gn 9). A vergonha de perder um filho (o que não era comum naquela época) e ter outros estéreis (Gn 11:30), tirou Terá de Ur dos Caldeus, levando seus filhos e seu único neto Ló (Gn 11.30).

O objetivo de Terá era ir até Canaã, mas o luto e a depressão o detiveram, e acampou seus últimos dias incapacitado de ir até Canaã e morreu ali em Harã. (Gn 11.32)

A família havia perdido seu patriarca, que deixou apenas um único neto e filhos que não tinham filhos e possivelmente não teriam. Na lógica humana era o fim de uma família, mas para Deus era o início de uma grande promessa.

Como estamos vendo nestas aulas sobre dispensacionalismo, Deus não atua sob a ótica da lógica humana, o impossível é apenas um detalhe para o Senhor, pelo que ao chamar Abrão ele lhe faz promessas em meio ao luto e a tristeza em Harã, que seria impossíveis na atual situação em que sua família se encontrava:

“Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação” (Gn 12.1-2)

A Fé era a fagulha necessária para uma grande nação

Após Deus dar um grande livramento à vida de Ló por meio da liderança e garra de Abrão, na guerra dos quatro reis contra cinco, ceou com Melquisedeque pão e vinho, e nele encontrou um sacerdote do Deus Altíssimo, que o abençoou e Abrão, ainda na dispensação da promessa, quando ainda não havia lei, deu-lhe o dízimo de tudo. (Gn 14.18-20).

Melquisedeque reconheceu algo diferente na vida de Abrão, pelo que não era comum uma vitória em uma guerra por um homem hebreu com 318 homens, criados em sua casa, contra cinco reis. A diferença era a promessa que resplandecia na sua vida.

Novamente o Senhor se apresenta a Abrão e lhe promete um filho (Gn 15.1-7). Promete um grande clã, um grande povo, gerações, pelo que Abrão não tinha terra, vivia em uma confederação no meio de outras famílias (Gn 14.13), pelo que Deus faz uma Aliança de possessão com Abrão (Gn 15.8,13-16), predizendo a escravidão no Egito e o juízo que sobreviria sobre o Egito ao fim da dispensação com a libertação do povo prometido, e a ainda prometeu que o povo hebreu subsistiria a todos os ataques dos descendentes de Canaã que sobre eles viriam em guerras no deserto (Gn 15.18-21).

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Os filhos de Abraão: Ismael e Isaque (os árabes e os judeus)

Entendendo a história da promessa feita por Deus também aos países árabes (descendentes de Ismael), também podemos entender o porquê do conflito entre Judeus e Árabes (ismaelitas) subsistir até os dias de hoje, e como devemos orar para que haja paz em todas estas nações.

Uma vez mais o homem ouviu a voz da mulher. Sarai transformou sua serva Agar em barriga de aluguel, porque não podia ter filhos (Gn 16.2). Agar concebeu e foi mandada embora por sua patroa, sob permissão de Abrão, vez que quando percebeu que estava grávida, a serva passou a desprezar as ordens de Sarai (Gn 16.5-6).

No deserto o anjo do Senhor encontrou Agar junto a uma fonte de água e prometeu-lhe que seria multiplicada a sua descendência, que não será contada, por numerosa que seria, por ser descendência de Abraão (Gn 21.13), e lhe prometeu Ismael, que significa: “Deus ouve”. Pelo que Agar chamou a Deus de “Deus que me vê”. (Gn 15.7-13).

Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu da terra da sua parentela (Gn 12.4), e já tinha noventa e nove anos (Gn 17.1), quando Deus novamente reafirmou a promessa e mudou o seu nome e de sua mulher para Abraão e Sara (Gn 17.5, 15). O Senhor prometeu-lhe que o filho da promessa estava chegando e o nome dele seria Isaque, e abençoou a ambos os filhos de Abraão (Gn 17.19-21).

Visitou o Senhor a Sara, como tinha dito, e cumpriu sua promessa, e puseram o nome do filho de Isaque (Gn 21.1-3). Ao crescer o menino Sara viu que Ismael zombava de Isaque, e mandou-o embora da terra junto com sua mãe Agar (Gn 21.9-14), porém Deus reiterou sua promessa para Agar, ouvindo o choro do menino no deserto (Gn 21.15-21), dando um grande livramento.

O propósito de Ismael também seria cumprido ainda na dispensação da promessa, pois a Bíblia afirma que Agar tomou mulher egípcia para seu filho (Gn 21.21, 25.28). Ismael se tornaria patriarca da ordem dos ismaelitas, que futuramente iriam comprar José, filho de Jacó, para ser servo no Egito (Gn 37.28).

A prova de Deus a Abraão – não há promessa sem prova

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Dispensação é prova de caráter, de obediência, e assim Deus fez a Abraão a fim de provar sua fé. Pediu o Senhor que Abraão sacrificasse seu único filho no monte Moriá (Gn 22.1-2).

Abraão tinha acabado de mandar seu primeiro filho embora com sua mãe para o deserto, agora tinha que oferecer o filho mais novo ao Senhor. Abraão iria ficar sem filhos na velhice e morrer sem esperanças numa geração futura de sua família, assim como seu pai Terá.

Mas não foi isso que surgiu nos pensamentos de Abraão, que não reclamou, não suplicou a Deus por misericórdia, apenas confiou e obedeceu: creu contra a esperança, ou seja, pela fé contra toda a lógica humana foi fiel a Deus (Rm 4.16-22).

Quando Abraão no Moriá estendeu a mão ao cutelo para imolar seu único filho, o anjo do Senhor bradou dos céus dizendo: “agora seu que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho (Gn 22.12). Foi quando Abraão olhou para atrás dele e viu um carneiro travado pelos chifres num mato, o tomou e ofereceu em holocausto no lugar de seu filho (Gn 22.13), pelo que chamou o lugar de “o Senhor proverá”.

Por este ato, o Senhor confirmou pela última vez a Abraão as promessas feitas pela multiplicação de sua descendência para fazer uma grande nação (Gn 22.16-18).

O que fará Deus a uma família que o teme? Que deixou seus ídolos para obedecer e confiar somente no Criador dos céus e da terra? – Uma descendência precisava surgir da família da Abraão. Sara era estéril, e agora gerou um filho, mas quem casaria com Isaque se a família Abraão, por parte de Ló se havia corrompido, e por parte de Naor até então não havia filhos, muito menos filhas.

Isaque, o filho da promessa, se misturaria com mulheres estranhas? – Obviamente que não!

Deus estava trabalhando na família de Abraão em Harã. E essa notícia veio logo depois de descer Abraão do monte Moriá: Naor, seu irmão, – filho de Terá seu pai, que morreu envergonhado por ter perdido um filho na velhice e sem esperanças de futuro, – teve filhos em Harã (Gn 22.23).

Os filhos de Isaque e de Jacó

Isaque casou-se com Rebeca, e tiveram dois filhos: Jacó e Esaú. Jacó, mesmo tendo enganado seu pai e seu irmão, recebeu a benção da sucessão da promessa de Deus feita a seu pai (Gn 27.28-29).

Jacó fugiu da ira de seu irmão, e foi mandado por sua mãe para Harã, onde habitavam seus parentes (Gn 27.43-44), ali trabalhou quatorze anos para Labão, seu tio, tendo lhe prometido casamento com Raquel. (Gn. 29.18,27)

Em Harã, Deus deu filhos a Jacó: Ruben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom, José e Benjamim. Dez deles formariam dez tribos de Israel, que no Egito se tornariam uma grande nação, ainda que debaixo de grande e dura servidão. (Gn 27 e 28)

José é levado ao Egito e livra as tribos de Israel da morte pela fome

José, o jovem sonhador, foi levado cativo ao Egito, vendido por seus irmãos, por inveja, aos ismaelitas (descendentes de Abraão) (Gn 37.25-27). No Egito se tornou criado na casa de Potifar. Foi acusado falsamente pela mulher de Potifar e lançado numa prisão (Gn 39.12-20). Mas ali ainda estava a promessa, pois Deus era com José. (Gn 39.21-23).

Deus lhe deu o dom de não apenas ter revelações em sonhos, mas de interpretar os sonhos daqueles que estavam com ele na prisão, como um padeiro e um copeiro. (Gn 40)

O copeiro, depois de anos, informou a Faraó que havia na prisão um jovem que tinha o dom de interpretar sonhos, pois nele estava o “Espírito de Deus”. Pelo que Faraó chamou José diante dele, que interpretou o sonho. (Gn 41)

José, na revelação do sonho deu uma verdadeira aula de economia para todos aqueles que estavam na corte de Faraó, pelo que Faraó não teve qualquer hesitação em colocar José como Governador (administrador) do Egito.

Anos depois, a fome interpretada por José chegou até Canaã, onde estavam seu pai e seus irmãos. Pelo que saíram e foram ao Egito comprar comida, e ali foram recebidos pelo Governador do Egito, que conteve suas lágrimas ao vê-los.

Fez uma proposta, de que daria o alimento se trouxessem o irmão mais novo Benjamim. Pelo que disseram que se o irmão mais novo não retornasse o pai morreria, mas o Governador se manteve irredutível.

Os hebreus, ainda que sob resistência de seu pai e sob fiança de Judá, trouxeram-lhe o irmão menor. O Governador pôs um copo de prata dentro das coisas do menino e o prendeu como ladrão, para que não retornasse com seus irmãos. Pelo que Judá faz algo sobrenatural, um capítulo lindo em Gênesis chamado “a súplica de Judá” na qual ele oferece sua própria vida no lugar da de seu irmão (Gn 44.18).

Judá se oferece no lugar de seu irmão mais novo, para que não angustiasse de morte seu pai Jacó em sua velhice. Ao ver a cena e ouvir as palavras de Judá, José não contém o seu choro e se revela a seus irmãos.

José diz a eles que não tem qualquer ressentimento, pois agora sabia porque ele tinha sido vendido ao Egito, porque Deus tinha permitido que ele fosse preso em uma masmorra durante anos, e que Deus o tinha guardado: PELA PROMESSA, para que seus irmãos, os filhos de Jacó, as tribos de Israel, não morressem de fome. (Gn 45.1-7).

José trouxe todos os seus irmãos e seu pai ao Egito, sendo que habitaram na terra de Gósen (próximo onde hoje é Alexandria), e ali faleceu Jacó, deixando a promessa aos seus filhos de retornarem a Canaã, à terra prometida, e José ao falecer pediu para que seus ossos fossem levados a terra prometida. (Gn 48.11)

No Egito, os hebreus não tinham nada. Nada além da promessa.

Próxima aula: A dispensação da promessa – parte 2

Autor: Rafael J. Dias

Pastor na Assembleia de Deus Ministério de Santos, advogado, escritor e ativista pelos direitos sociais. Formado em Direito pela Universidade Católica de Santos e em Teologia pelo IBAD. Especialista em Direito da Administração Pública pela Estácio. Pós-graduando em Liderança Pastoral pela FABAD.

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