A dispensação da Lei – parte 2: Juízes e Reis de Israel

Após a conquista da terra prometida sob o comando de Josué, o povo de Israel é provado no cumprimento voluntário da Lei, mas falha e é julgado por homens levantados por Deus para livrar o povo. Em seguida Israel pede um Rei para seguir, dando início ao tempo dos reis de israel, muitos maus e poucos bons, o que distanciou o povo do cumprimento das Leis de Deus, que levou o povo a sofrer o juízo do cativeiro.

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Início, duração e término da dispensação

A dispensação da lei durou 1.430 anos: da saída do Egito, com a chegada ao monte Sinai, até a crucificação de Jesus. (Ex. 19.8). 

O Juízo desta dispensação foi o cativeiro de Israel (assírio, babilônico e persa), assim como a colonização de Israel por outras potências mundiais, como a Grécia e Roma. 

O término da dispensação se deu com a ineficácia da Lei para o plano da salvação, e com o sacrifício de Cristo na cruz do calvário (Gl. 3.24,25). 

Ponto de partida – a divisão da terra de Canaã na conquista de Josué

Após a conquista de Canaã, o povo de Israel sob a liderança de Josué recebeu a divisão da terra conforme as tribos dos filhos de Jacó.

Quando o Senhor entregou os amorreus nas mãos de Israel, o sol parou em Gibeão e, a lua, no vale de Aijalom. Segundo especialistas, essa manifestação poderosa na natureza pode ter durado entre doze e vinte horas (Js 10.12-15).

Dos capítulos dez ao doze do livro de Josué, uma sucessão de vitórias sobre diversos reis cananeus é narrada. À medida que os israelitas avançavam, a terra era conquistada e a distribuição dela aconteceu através de sorteiro, supervisionado por Josué, Eleazar e líderes das tribos (Js. 14.1-5).

Assim, a tribu de Rúbem, Gade e meia tribo de Manassés ocuparam a terra situada a leste do rio Jordão. Judá, Efraim, a outra parte de Manassés, Benjamim, Simeão, Issacar, Aser, Naftali e Dã, instalaram-se a oeste do mesmo rio. Posterior à divisão da terra, o tabernáculo foi edificado em Siló (Js 18) – que foi, por assim dizer, o primeiro Distrito Federal (sede da nação), local de adoração e centro de realização das festas e cultos de Israel.

Mapa da divisão da terra:

Vale ressaltar que os levitas não herdaram terra, pois o Senhor Deus lhes disse que Ele mesmo (o próprio Deus) seria a sua herança, visto que a eles foi concedido os direitos sacerdotais do Templo/Tabernáculo (Js 13.33).

Em todo o território, dividiram-se entre quarenta e oito cidades (Js 21.41).

Josué, em seus últimos dias antes de falecer, conclamou o povo a obedecer aos mandamentos do Senhor e os alertou acerca dos perigos da desobediência. Advertiu que o povo lembrasse que todas as conquistas feitas foram possível pelo braço forte do Senhor Deus Jeová, pois foi o Todo Poderoso quem pelejou por Israel (Js. 23.6-9).

Josué, por fim, reuniu todas as tribos, e advertiu que o povo que naquele ato fizesse a escolha entre servir a Deus ou aos outros deuses cananeus, e o povo escolheu servir ao Senhor (Js. 24:14-18), tendo Josué advertido que Deus é Deus zeloso que não abrandaria suas mãos sobre os desobedientes (Js 24.19-27).

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O tempo dos Juízes de Israel – ciclo vicioso entre infidelidade, domínio e livramento

Após o compromisso feito perante o Deus de Josué, o povo não foi fiel às suas próprias palavras e cada um começou a fazer “o que bem parecia aos seus olhos” (Jz 17.6).

Isso porque a Lei não foi respeitada voluntariamente pelo povo. Não havia ninguém para impor a Lei, fazendo-os cumprir sob coação o que Deus ordenou.

Assim, sem uma liderança forte, a rebelião, a corrupção a apostasia dominaram todo o povo, o que trouxe grandes sofrimento e opressão por parte dos inimigos, sob permissão de Deus. Quando o povo se arrependia, e voltava a buscar ao Senhor, ele levantava um Juiz (seja homem ou mulher) para livrar o povo das mãos dos opressores.

Bastou que morresse Josué, simplesmente a ausência de um liderança, para que o pecado, a idolatria e as alianças com outros povos (o que era abominado por Deus), corrompesse a nação. O Senhor, então, por seu Anjo, repreende duramente ao povo de Israel dizendo que “os deuses dos povos vizinhos (isto é, a idolatria) lhes seriam por laço” (Jz 2.1-3).

O que vem em seguida é um tempo de sofrimento, de distanciamento de Deus, de arrependimento e de livramento por intermédio de um homem ou uma mulher cheia do Espírito de Deus para livrar o povo das mãos dos povos vizinhos.

Tabela dos Juízes de Israel

JUIZPOVOS OPRESSORESTEMPO DE OPRESSÃOTEMPO DE PAZ
OtnielMesopotâmia08 anos40 anos
EúdeMoabitas18 anos80 anos
SangarFilisteusNão informadoNão informado
DéboraCananeus20 anos40 anos
GideãoMidinitas07 anos40 anos
TolaNão InformadoNão Informado23 anos
JairNão InformadoNão InformadoNão Informado
JeftéAmonitas18 anos06 anos
IbsãNão InformadoNão Informado07 anos
ElomNão InformadoNão Informado10 anos
AbdomNão InformadoNão Informado08 anos
SansãoFilisteus40 anos20 anos

Ao fim do livro de Juízes vemos um cenário triste em que o povo, sem uma liderança, relutava em cumprir as Leis de Deus voluntariamente, a idolatria, a degradação moral e espiritual são evidenciadas.

O tempo dos Juízes termina de maneira triste, em que o povo, em razão do triste episódio de feminicídio (Jz 20-21), entra em guerra civil, todas as tribos de Israel contra homens degradados moralmente da pequena tribo de benjamim. Ao vencer a tribo de benjamim após muitas perdas de vidas, a fim de que a pequena tribo não deixasse de existir, mulheres foram trazidas de outras tribos para que suscitassem descendência a benjamim e assim mantivesse viva a tribo, da qual viria o Apóstolo Paulo.

O povo pede um Rei ao Senhor

Samuel, o sacerdote, juiz e profeta avisa o povo dos perigos desta escolha

Todos conhecemos a história de Ana, Elcana e Penina, acerca do nascimento de Samuel, uma criança fruto de um milagre (visto que Deus abru o ventre de Ana que era estéril) e foi entregue para servir ao sumo sacerdote Eli no templo em Siló, que julgou Israel por quarenta anos, mas era fraco em caráter e permissivo, instruiu mal os seus filhos Hofni e Fineias que eram corruptos, roubavam ofertas do templo, eram adúlteros, promoviam o pecado e Eli, seu pai, os acobertava (I Sm. 2.22-25).

O Senhor Deus, então, usa Samuel ainda criança, para profetizar para Eli que seu sacerdócio fora rejeitado, comprovação disso os dois filhos de Eli foram mortos e a arca da aliança foi roubada pelos filisteus e ao receber a notícia Eli caiu da cadeira e quebrou o pescoço (I Sm 4.17,18), assim foi a demonstração a todo o povo que Deus era com Samuel (I Sm. 3.19-21).

O povo, então, depois de anos sendo julgado e cultuado perante Samuel em Siló, pede um rei, a exemplo das demais nações que tinham um rei para saírem para guerras. Cedo ou tarde isso aconteceria, visto que Deus, em sua onisciência, já havia dado um estatuto para quando isto acontecesse, mesmo que não fosse de sua plena vontade, mas permitiu que ocorresse (Dt 17.14-20).

Samuel se sentiu mal com o pedido do povo, mas Deus disse que Samuel não se sentisse assim, pois quem estava na verdade sendo rejeitado era o próprio Deus (I Sm 8.6,7). Os israelitas, em vez de colocar a culpa em seus próprios desvios, erros e pecados, colocou a culpa no sistema (teocrático) e achavam que com um rei no comando (monarquia), os erros não mais aconteceriam.

Queriam um líder humano para representá-los, como tinhas as demais nações (I Sm 8.20), deixando, assim, de reconhecer o governo de Deus sobre eles (teocracia), (I Sm 8.7).

Samuel, tomado por Deus, então, alerta o povo de que quando chegasse o momento da opressão dos povos, pela desobediência, pela rebeldia, quando clamassem por ajuda não os atenderia (I Sm 8.10), visto que escolheu ser governado pelos homens. Mas, ainda assim, permaneceram na vontade de ter um rei, para imitar as demais nações (I Sm 8.19,20).

Os Reis de Israel – a divisão do reino e o cativeiro anunciado

A Soberba de Saul

Saul foi o primeiro rei de Israel, ovacionado pelo povo e permitido por Deus. Deveria iniciar seu reinado com humildade, visto que vinha da menor das tribos, a tribo de Benjamim. Todavia, a sede pelo poder tomou conta do seu coração ao ponto de nem mesmo respeitar o sacerdócio de Samuel.

Saul passou a pensar que era o sacerdote, representante do próprio Deus que lhe devia obediência, e usurpou o seu lugar sacrificando, o que não era da sua alçada. A obediência à Lei de Deus era melhor do que os procedimentos, os sacrifícios. E isso ele aprendeu da pior maneira, sendo rejeitado pelo Senhor.

A humildade de Davi

Em alguns momentos o poder também tomou conta de Davi, visto que seu pior erro foi o adultério, pois achava que estava acima da Lei e poderia ter o que queria, matando Urias e casando-se com Bate-Seba. Aprendeu que não lhe era permitido oprimir a vida de ninguém, e o aprendizado foi da pior maneira. Foi julgado por Deus em sua própria casa, seus filhos se voltaram contra ele, se tornou um fugitivo no prórpio reino.

O diferencial de Davi para Saul, é que Davi, independente de quem estava no trono, teve por vezes a humildade e plena convicção de reconhecer que quem governa os tempos e as épocas é o Senhor, que está acima de todas as coisas. Ao quebrantar o seu coração, Davi era chamado de “homem segundo o coração de Deus” e recebia as misericórdias do Senhor.

A vaidade de Salomão

Salomão não foi um Rei ruim, porém seu problema foi ter colocado o glamour da posição do reinado, na frente de desfrutar sua vida com Deus. A materialidade tomou conta do seu coração, e ao fim da vida percebeu que tudo era passageiro e mais valia ao jovem lembrar do Senhor.

Por isso Jesus nos alerta para ajuntar tesouros nos céus em primeiro lugar, para que não vivamos uma vida servindo às vaidades da vida, no lugar de enriquecer os céus, que é a única esperança que temos quando chega a idade e os dias em que não podemos mais fazer muitas coisas sozinhos.

Os demais reis de Israel:

Após a morte do Rei Salomão, subiu o trono seu filho Roboão, que fez um discurso duro perante o povo, de que seriam mais pesado (em impostos) de que o seu pai, e nisso foi rejeitado por parte do povo que seguiu Jeroboão, e o reino foi dividido em Reino do Sul (Judá) e Reino do Norte (Israel).

Todavia, Reino divido não subsiste e os reinos não duraram muito tempo sem ameaças de nações inimigas.

REIS DO NORTE

REISDATASTEMPO DE REINADO
Jeroboão931 – 910 a.C22 anos
Nadabe910 – 909 a.C.02 anos
Baasa909 – 886 a.C.24 anos
Elá886 – 885 a.C.02 anos
Zinri885 a.C.7 dias
Onri885 a.C.12 anos
Acabe874-85322 anos
Acazias853-8522 anos
Jorão852 – 84112 anos
Jeú841-81428 anos
Jeoacaz814-79817 anos
Jeoás798-78216 anos
Jeroboão II793-75341 anos
Zacarias753 a.C.06 meses
Salum752 a.C.01 mês
Menaém752-74210 anos
Pecaías741-740 a.C.02 anos
Peca752-732 a.C.20 anos
Oseias731-72209 anos

Ao todo 19 (dezenove) reis reinaram no norte, todos os reis do norte foram ímpios e desagradaram ao Senhor.

REIS DO SUL

REIS DE JUDÁDATATEMPO DE REINADO
Roboão931-91317 anos
Abias913-91003 anos
Asa910-86941 anos
Josafá872-84825 anos
Jeorão853-84108 anos
Acazias84101 ano
Atalia841-83506 anos
Joás835-79640 anos
Amazias796-76729 anos
Uzias792-74052 anos
Jotão750-73218 anos
Acaz732-71516 anos
Ezequias715-68629 anos
Manassés697-64255 anos
Amom642-64002 anos
Josias640-60931 anos
Joacaz60903 meses
Jeoaquim609-59811 meses
Joaquim59703 meses
Zedequias597-58611 anos

Ao todo 20 (vinte) reis reinaram no sul, alguns reis do sul foram aprovados por Deus.

O Juízo do cativeiro

Em virtude da conduta dos reis e da rebeldia do povo, em reiteradamente descumprir as Leis de Deus, o Senhor os entrega nas mãos das nações estranhas, para sofrer 70 (setenta) anos de cativeiro, pelos 70 anos em que descumpriu os anos sabáticos, em que a terra deveria descansar.

“Para que se cumprisse a palavra do Senhor, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da assolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram. Porém, no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (para que se cumprisse a palavra do Senhor pela boca de Jeremias), despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá. Quem há entre vós, de todo o seu povo, o Senhor seu Deus seja com ele, e suba.” 2 Crônicas 36:21-23

Próxima aula: A dispensação da Lei – Parte 3

Autor: Rafael J. Dias

Pastor na Assembleia de Deus Ministério de Santos, advogado, escritor e ativista pelos direitos sociais. Formado em Direito pela Universidade Católica de Santos e em Teologia pelo IBAD. Especialista em Direito da Administração Pública pela Estácio. Pós-graduando em Liderança Pastoral pela FABAD.

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