Se eu falhar ele morre

Precisamos de um serviço de saúde com o lema e o coração dos voluntários da Cruz Vermelha. Se não há orçamento público, trabalhamos com o coração.

Se eu falhar ele morre. Cruz vermelha.
Voluntários da Cruz Vermelha usando máscaras durante a pandemia de gripe de 1918. Ao fundo se lê o lema: “se eu falhar, ele morre” – “if i fail, he dies” (https://edition.cnn.com/2020/04/03/americas/flu-america-1918-masks-intl-hnk)

O que é a Cruz Vermelha?

Quando o serviço de saúde pública falha, a Cruz Vermelha e seus voluntários entram em ação com o lema: “Se eu falhar, ele morre”, referência à campanha voluntária ao atendimento dos feridos em combate na primeira guerra mundial.

Fundado em 1863 em Genebra, na Suíça (o símbolo da Cruz Vermelha são as cores invertidas da bandeira da Suíça), o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho é uma associação sem fins lucrativos que possui mais de 97 milhões de voluntários mundialmente.

A Cruz Vermelha tem como característica básica ser um movimento humanitário, neutro e imparcial, sem qualquer vinculação a políticas de qualquer país do mundo.

Como objetivo primário visa: proteger a vida e a saúde humana e prevenir e aliviar o sofrimento humano, sem discriminação de nacionalidade, raça, sexo, religião, classe social ou opiniões políticas.

A atuação da Cruz Vermelha na gripe espanhola em 1918-1920

A Cruz Vermelha teve papel fundamental na primeira guerra mundial (1914-1918). Tendo sido a primeira grande atuação dos voluntários da organização. Enquanto países entravam em conflito, os voluntários entravam nos campos de batalha para dar atendimento para os feridos de ambos os lados do conflito. O símbolo na roupa branca dos voluntários garantia o trânsito dos livre e seguro.

Contudo, não foi o desespero da guerra que mais teria afetado e provado o coração dos voluntários da Cruz Vermelha, mas um inimigo invisível, que surgiu durante a guerra e foi levada a muitos países pelos próprios soldados que retornavam: a gripe espanhola.

A gripe espanhola infectou 500.000.000 (quinhentas milhões) de pessoas no mundo, gerando 50.000.000 (cinquenta milhões) de mortes durante dois anos inteiros.

A organização logo entrou em ação e seus voluntários foram enviados para diversos países, inclusive para o Brasil, durante o governo do então presidente Venceslau Braz.

A gripe espanhola no Brasil

Segundo a história (que sempre se repete), naquele tempo se viu o caos social sendo explorado pelos jornais, grupos políticos e insatisfação geral e crescente da população. Isso devido à demora na adoção de medidas sanitárias pelo governo de Venceslau Braz, que estava completamente despreparado e desaparelhado para combater a doença.

Segundo ensina Adriana da Costa Goulart, Mestre em história social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em artigo intitulado “Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro”:

“A escassez de verbas destinadas à saúde pública dificultava a implementação, o aparelhamento e a manutenção de instituições e projetos de saúde pública, contribuindo para a limitação dos socorros públicos durante a epidemia.”

Naquele cenário, a política nacional, a saúde pública nacional havia falhado miseravelmente. Nesse quadro, não importam as opiniões políticas, não interessam as discussões de administração pública ou atitudes eleitoreiras. Nada mais poderia ser feito.

Quem poderia ajudar o Brasil a enfrentar toda aquela pandemia, onde não havia mais esperança no serviço público? – A Cruz Vermelha.

Adriana da Costa Goulart descreve esse momento histórico da seguinte maneira:

“O atendimento da população acabou dependendo, na maior parte do tempo, da iniciativa das esferas privadas: igrejas, escolas, clubes e a Cruz Vermelha Brasileira.”

O COVID-19 no Brasil e a Cruz Vermelha

A história é também é contada no próprio site da CV brasileira na atual pandemia de conoravírus (COVID-19) divulgou boletim informativo relembrando os esforços pela saúde dos brasileiros durante a gripe espanhola. Deixando claro que, caso seja necessário, não negará esforços para atuação em escala nacional, nunca antes vista na história da instituição.

É maravilhoso sentir a energia do voluntariado da organização, que deixou bem claro para todos nós que estão empenhando seus esforços neste momento difícil:

“Estamos abrindo mão de nossos horários com a família, nossos finais de semana, nossas tarefas pessoais e de tudo que poderíamos estar fazendo neste período de quarentena, para ajudar o nosso povo, que tanto precisa de apoio nesse momento. É importante pedir muita calma, assim como atuamos incansavelmente durante a gripe espanhola, em 1918, o legado da instituição permanece até hoje, e assim como todas as outras pandemias, venceremos essa também.”

100 (cem) anos se passaram desde o fim da gripe espanhola, e mais uma vez o desafio é grande para os voluntários da Cruz Vermelha.

Certamente é para os voluntários que deveremos lançar os nossos olhos e nossas orações, pois o sistema político possui limites. Mas o coração de um verdadeiro voluntário é ilimitado ao ponto de se auto-responsabilizar pelas vidas dizendo: “Eu não posso falhar. Se eu falhar, ele morre”.

Lema da cruz vermelha: “Se eu falhar ele morre”

Se eu falhar ele morre. Cruz Vermelha.
Sociedade Histórica de Wisconsin, Stanislaus Aloisius Iciek, Arthur G. McCoy, If i fail he dies, ID 128879. Visualizado on-line em https://www.wisconsinhistory.org/Records/Image/IM128879

A foto em destaque deste post, – aquela com os enfermeiros com máscaras dando coletiva de imprensa na cidade de São Francisco/Califórnia, – foi a primeira vez que vi o lema da Cruz Vermelha. Utilizado na campanha voluntária da primeira guerra mundial e no combate à gripe espanhola nos EUA em 1918.

“Se eu falhar, ele morre” (do inglês: “if i fail, he dies”). Quando li esta frase eu abri a imagem e reli novamente para ver se realmente era aquilo o que estava escrito. Fiquei intrigado, me senti provocado.

O serviço era voluntário, não havia qualquer retorno financeiro, as famílias dos voluntários não sabiam se eles voltariam para casa com saúde. Ainda assim, eles simplesmente entendiam que falhar em serviço seria pior do que a morte.

Isso porque se alguém morresse não seria por culpa do vírus. Não seria por culpa da baixa imunidade. Nem seria por culpa dos chineses. Não: o próprio médico/enfermeiro se responsabilizaria voluntariamente pela morte.

Isso é amor de verdade.

É o tipo de missão de vida, de dedicação, de empenho pela saúde da população que não temos visto ultimamente. Se pessoas morrerem, significa que falhamos. Se muitos estão morrendo: SIM, a culpa é daqueles que estão na responsabilidade do cuidado com a saúde das pessoas.

Segundo este pensamento, um nível de responsabilização pessoal é exigido, mas para isto é preciso coragem. É preciso se humilhar e se responsabilizar por cada morte que esteja ocorrendo.

Em tempos de pandemia é necessário um coração de voluntário da Cruz Vermelha, um nível elevado de compromisso com a vida do outro para estar em um cargo de responsabilidade pública.

A responsabilidade pessoal pela vida do outro

O lema poderia ser coletivo, mas é individual: “Se eu falhar, ele morre”. Isso entra em completo contraste com a realidade política que vivemos.

A ausência de autocrítica, de auto-responsabilização, tem tornado a vida social um caos nas cidades do país. Não há mais compromisso público com a vida do outro, tudo gira em torno do ego e do poder.

Estamos presenciando declarações de desdém daqueles que gostaríamos que se responsabilizassem pelas perdas de familiares, de cidadãos que trabalharam pelo país. Situação muito distante da que precisamos em um momento tão difícil como este.

Nunca foi tão atual e necessário que revíssemos o papel daqueles que administram a coisa pública (República). É preciso valorizarmos daqueles que levam em alta estima a vida do outro sob os princípios da Cruz Vermelha: humanidade, isenção política e não discriminação.

Toda a vida importa. E nós somos responsáveis uns pela vida dos outros. Se continuarmos falhando, pessoas continuarão morrendo.

Pense consigo mesmo: você falhou? – Eu penso que falhei, não tendo escrito o que penso antes. Deixando de criar este espaço mais cedo para expor minhas ideias amparados em estudos.

Eu poderia ter salvado mais alguém do obscurantismo que, atualmente, está matando milhares no engodo do desdém pela vida humana.

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