A dispensação da Lei – parte 4: restauração e plenitude dos tempos

Ainda na dispensação da Lei, os judeus ficaram 70 anos cativos sob o império babilônico e persa. Cumprido o tempo determinado, Deus usa os imperadores persas para libertarem o povo de Israel em três fases. Com a restauração de Israel como nação é iniciado o processo da “plenitude dos tempos”.

dispensação da lei

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Início, duração e término da dispensação

A dispensação da lei durou 1.430 anos: da saída do Egito, com a chegada ao monte Sinai, até a crucificação de Jesus. (Ex. 19.8). 

O Juízo desta dispensação foi o cativeiro de Israel (assírio, babilônico e persa), assim como a colonização de Israel por outras potências mundiais, como a Grécia e Roma. 

O término da dispensação se deu com a ineficácia da Lei para o plano da salvação, e com o sacrifício de Cristo na cruz do calvário (Gl. 3.24,25). 

Ponto de partida – os primeiros e últimos anos do cativeiro

O Senhor Deus deixou bem claro que o povo de Judá não ficaria pouco tempo no cativeiro. Assim, advertiu-os a construírem casas, construir jardim, desfrutar do que conseguissem no lugar para onde foram. (Jeremias 29:5)

Ainda, recomendou que constituíssem suas famílias e se multiplicassem e continuassem sendo um único povo, sem diminuírem de número. (vs. 6)

Ordenou que procurassem viver em paz para onde foram levados. Isto é, que não tentassem a violência nem qualquer ato de rebelião, pois havia sido o Senhor que permitiu que fossem transportados para lá. (vs. 7)

Portanto, deveriam orar pelo lugar para onde foram, porque tendo paz naquele lugar eles teriam anos de paz.

Leia antes: A dispensação da Lei – Parte 1 – Parte 2 – Parte 3

Daniel e seus amigos

O jovem Daniel e seus amigos Ananias, Misael e Azarias, ao chegarem na Babilônia tiveram seus nomes trocados para tornarem-se pertencentes à classe dos nobres daquela nação. Foram chamados de Baltessazar, Sadraque, Mesaque e Abede-nego. (Dn. 1.6-7)

Contudo, sendo fiéis a Deus, cientes de haviam sido transportados para a Babilônia, decidiram manter um programa de oração e consagração ao Senhor. Em primeiro lugar, ainda sendo classificados entre os nobres, não quiserem se comportar como os tais se comportavam. (Dn. 1.8-21)

Daniel recebeu do Senhor o dom da revelação no cativeiro (Dn. 1.17), tendo interpretado o sonho de Nabucodonozor, em que uma grande estátua feita de diversos tipos de metais, havia sido derrubada por uma pedra cortada sem a ajuda de mãos (Dn. 2.31-39), que esmiuçou a estátua e se tornou um monte que encheu a terra.

Em seguida, em outros tempos, seus três amigos vão para um pátio onde foi erguida uma grande estátua de ouro, diante da qual todos os moradores da Babilônia e os grandes e nobres deveriam curvar-se. (Dn. 3)

Contudo aqueles jovens se negaram a curvar-se diante do rei, pois tinham a completa ciência do porquê foram parar na Babilônia: em razão da idolatria do povo de Israel. (Dn. 3.16-18)

Sadraque, Mesaque e Abede-nego, ainda que sendo apenas três jovens, simbolizam o propósito da purificação da adoração do povo judeu a um único Deus. A conversão do caráter do povo judeu que havia sido escolhido para ser monoteísta (adorar apenas ao único Deus e Senhor).

Anos depois, ainda no cativeiro, houve um banquete em que o filho de Nabucodonozor, Belsazar, utilizou dos utensílios que foram apreendidos do templo do Senhor em Jerusalém, e escarneceu deles, quando uma mão escreveu na parede: “mene, mene, tequel, parsim”. (Dn. 5)

Apenas Daniel, que não estava em referida festa foi capaz de interpretar a escrita na parede que significava: “pesado foste na balança e foste achado em falta, teu reino está sendo retirado de ti”. (Dn. 5.26-31)

Vieram então os medo-persas e tomaram todo o império babilônico, iniciando-se o período do Império Persa. Contudo, Daniel continuou como um dos grandes também neste vasto império que era o maior daquele tempo.

O comportamento de Daniel de se consagrar ao Senhor e fazer muitas orações incomodou aos persas, pois tinham para eles que seu imperador era um “deus” e somente a ele deveriam se fazer petições. (Dn. 6)

Estes homens conspiraram contra a vida de Daniel fazendo o rei assinar um decreto de que qualquer homem que fizesse orações a outros “deuses” senão ao rei seria lançado na cova dos leões.

Como as leis persas eram impossíveis de serem revogadas, Daniel foi pego e lançado na cova dos leões. Como o imperador gostava muito de Daniel ficou apreensivo para ver como ele estava no outro dia pela manhã, quando ouviu a voz de Daniel dizendo do fundo da cova que estava tudo bem e que Deus tinha enviado um anjo que fechou a boca dos leões.

Os demais capítulos de Daniel são revelações escatológicas que serão analisadas ao final da dispensação da graça. (Dn. 7-12)

Ezequiel – o profeta do cativeiro

Já o profeta Ezequiel, também como um profeta do cativeiro, teve revelações profundas acerca da situação espiritual do povo judeu. Pregou suas profecias ao povo que estava cativo na Babilônia e para parcela dos pobres que ficaram morando em Jerusalém.

Deus falou a Ezequiel por várias visões. Um dos principais ensinos das profecias de Ezequiel é o da “responsabilidade individual” pelos pecados, sendo necessário uma renovação íntima, mudando o coração. (Ez. 18)

As profecias de Ezequiel também continham uma porção de esperança que sobreviria se Israel começasse a viver uma vida nova de obediência aos preceitos da Lei de Deus.

Ezequiel teve também revelações acerca do templo de Jerusalém e que se os adoradores do Senhor viverem uma vida dedicada a ele, o tempo de restauração estaria próximo.

O surgimento das sinagogas

Durante o período de cativeiro do povo de Israel na Babilônia os israelitas sentiram a ausência de um templo onde pudessem adorar a Deus. Assim, com o passar dos anos estando espalhados pelo império babilônico cada comunidade judaica foi montando seus pequenos templos que chamaram de “sinagoga” (assembleia ou congregação).

As sinagogas passaram a ser o local de encontro para as reuniões dos judeus para fazerem suas orações e onde resgataram o hábito dado ao Senhor Deus a Josué, meditar nas Escrituras. O hábito da leitura nas sinagogas tornou-se comum ao ponto de um dia exclusivo na semana ser reservado para esta leitura dedicada: o sábado. (Lucas 4.16)

Estima-se que no início da era cristã havia entre 395 a 480 sinagogas espalhadas em todas as nações do mundo antigo. Essa dispersão dos judeus em outras nações chama-se diáspora.

Restauração – as principais instituições dos judeus

Quando chegou o tempo certo profetizado pelo profeta Isaías, Deus deu graça a um dos imperadores da Pérsia chamado Ciro, que ao ler seu próprio nome nos escritos do profeta Isaías foi tomado pelo senso de responsabilidade em libertar o povo de Israel e restaurar seu local de culto: o templo. (Esdras 1.4)

Retorno com Zorobabel – a restauração do templo

A primeira parte do retorno dos Israelitas para seu país foi com um homem chamado Zorobabel, também chamado de príncipe entre os judeus. Foi dado a ele ouro, materiais e os homens que fossem necessários para edificar o templo. (Esdras 1.5-11)

Contudo, homens contrários à Israel enviaram cartas ao rei da Pérsia, difamando os homens judeus, dizendo que iriam construir fortalezas e ameaçar o império. Assim a obra foi parada.

Durante a paralisação da obra Deus usou os profetas Ageu e Zacarias para profetizar ao povo, para que tivessem responsabilidade e não gastassem dinheiro reformando suas casas e se esquecessem do Templo do Senhor. (Esdras 5.1)

Após um período sobreveio a autorização do rei da Pérsia para a conclusão do templo, que foi reerguido diante dos olhos do povo com muita emoção.

O templo reerguido não tinha o mesmo esplendor do templo de Salomão, mas só de estarem novamente em seu lugar próprio de adoração na Terra Santa foi motivo de muita emoção. Principalmente para os mais velhos que tinham visto a ruína do primeiro templo pelas mãos de Nabucodonozor. (Esdras 3.12-13)

Retorno com Esdras – a restauração da Lei

O que seria de um templo novo reerguido sem a que fosse ministrado sobre ele tudo aquilo que o povo não cumpriu da forma correta antes do cativeiro. O rei da Pérsia então ordena que o escriba Esdras fosse enviado para Jerusalém para oficiar como o sumo-sacerdote do templo de Jerusalém. (Esdras 7.6)

Lá chegando, diante de todo o povo pegou o livro da Lei em suas mãos, era indescritível a emoção. Colocou-o sobre o altar e começou a lê-lo e ensiná-lo com ousadia e graça diante de todo o povo de Israel. (Esdras 10.1)

Após algum tempo ministrando a palavra diante do povo de Israel, celebrando os cultos, os sacrifícios e as festas, percebeu que havia algo que ainda não estava correto. A leitura da palavra estava cansando o povo, estava em falta alguma coisa.

Ao passar os seus olhos sobre todo aquele povo, percebeu que ali não havia nenhum levita. Ou seja, o povo que estava diante dele recebendo a palavra estava sedento pela adoração. (Esdras 8.15-20)

Esdras então envia homens para trazerem levitas para Jerusalém para que ministrassem os louvores no templo, para que a adoração de corpo, alma e espírito fosse completa no templo do Senhor.

Retorno com Neemias – a restauração da Cidade Santa

O povo já havia restaurado seu templo, já havia restaurado a Lei e a adoração ao Senhor. Mas ainda não havia restaurado o seu orgulho como nação.

Jerusalém ainda estava queimada, destruída, com os muros caídos. Era necessário alguém que pudesse restaurar a Cidade Santa liderando o povo em uma grande obra pública.

Neemias, servindo o rei da Pérsia como copeiro, ao ler uma carta de um de seus irmãos fica entristecido por saber que a Cidade Santa ainda permanecia destruída, sendo incapaz de esconder a sua tristeza diante do rei.

Pelo que o rei é tomado pelo sentimento de Neemias e autoriza que ele pudesse retornar a Jerusalém e restaurar os muros da Cidade Santa, podendo levar o que ele precisasse para que esta obra fosse realizada.

Neemias, então, reúne homens e vai a Jerusalém constatar a situação e dar início à grande obra. Ele passa por várias situações complicadas, como a afronta de homens cruéis como Sambalate e Tobias que queriam parar a obra com suas conspirações.

Contudo, a determinação e a fé inabalável de Neemias fortalecia o ânimo de todo o povo que, além de encontrar forças no Senhor para concluir a obra em cinquenta e dois dias, aprendeu ficar alerta e vigiando as brechas do muro para se defender de todo perigo que surgisse.

Ao término do muro, o governador Neemias se reuniu com Esdras no templo, e juntos celebraram um grande culto de ação de graças, lendo a Lei do Senhor diante de todos.

A leitura conjunta da Lei de Deus se tornou rotineira, demonstrando que haviam aprendido com o cativeiro, que tudo o que o Senhor lhes requeria era o cumprimento da sua Lei (Ne 8.1-3, 8-10; 9.3, 32-38).

“E leram no livro, na lei de Deus; e declarando, e explicando o sentido, faziam que, lendo, se entendesse. E Neemias, que era o governador, e o sacerdote Esdras, o escriba, e os levitas que ensinavam ao povo, disseram a todo o povo: Este dia é consagrado ao Senhor vosso Deus, então não vos lamenteis, nem choreis. Porque todo o povo chorava, ouvindo as palavras da lei.” Neemias 8:8,9

A Plenitude dos Tempos

A plenitude da dispensação da Lei. Tudo o que era necessário que Deus fizesse com o povo de Israel havia sido feito e cumprido.

Israel ficou tão firmado nos ensinamentos de Deus por meio do juízo do cativeiro, que vieram outras culturas que dominaram a palestina no pós-cativeiro, como a Grécia, com a grande helenização do mundo promovida por Alexandre “O Grande”, que teve um grande impacto quando percebeu a força moral do povo judeu, que não se dobrava perante os poderes humanos, nem negociavam a sua religião.

Os generais de Alexandre, após seu falecimento, ficaram no poder do império grego e ficaram tão interessados na ética judaica, que ao término da construção da grande biblioteca de Alexandria, no Egito, convocaram setenta e dois escribas judeus com experiência, para traduzirem o Livro Sagrado dos judeus a “Torá” para o grego.

Referida tradução ficou conhecida no mundo antigo como “a tradução dos setenta”, ou como melhor conhecida, “a septuaginta” (LVXX).

Após os gregos vieram também os imperadores romanos, que encontraram um povo que lutou pela sua liberdade de religião, pelos seus templos e sinagogas que funcionavam em várias cidades espalhadas pelos países vizinhos. Tentou por vezes impor a cultura e religião romana, mas não havia como fazê-lo, pois o povo não se rendia a outros deuses.

Assim, a única religião que foi tolerada perante todo o vasto império romano foi o “monoteísmo judaico”, tendo sido feito juntamente com os líderes religiosos locais e os políticos romanos um compromisso, uma aliança, entre o templo que reunia dois partidos religiosos: os saduceus e os fariseus, e entre os governadores e pontífices (prefeitos e tribunos) romanos.

Com o tempo tal relação foi se tornando corrupta, foi deixando de ser santa e pura, os rituais começaram a estar mais ligados ao domínio social do povo do que propriamente a servir a Deus de coração e entendimento.

A Lei de Deus realmente começou a ser cumprida, visto que tanto os líderes como todo o povo tinha como grande valor o cumprimento total e literal das Escrituras Sagradas.

Porém, não era bem esse cumprimento que Deus queria dos homens, e pelo exagero, pela religiosidade, também não conseguiram agradar a Deus, tendo Ele que enviar seu filho para cumprir toda a Lei no lugar dos homens, para nos mostrar o que Ele espera de nós.

A Lei não se mostra suficiente para agradar a Deus, senão pela maravilhosa graça de Jesus Cristo, que se fez Lei por nós na cruz do calvário.

Próxima aula: A dispensação da Graça – Parte 1

Autor: Rafael J. Dias

Pastor na Assembleia de Deus Ministério de Santos, advogado, escritor e ativista pelos direitos sociais. Formado em Direito pela Universidade Católica de Santos e em Teologia pelo IBAD. Especialista em Direito da Administração Pública pela Estácio. Pós-graduando em Liderança Pastoral pela FABAD.

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