As qualidades familiares do obreiro aprovado

O segundo altar do obreiro aprovado, após o seu altar individual com Deus, é o altar familiar. Se as qualidades familiares do obreiro não estiverem presentes, seu ministério estará reprovado, não importa o quanto aparente estar espiritualmente saudável.

A importância da família na vida do obreiro

A vida do cristão, principalmente do obreiro, é edificada sobre 3 (três) altares:

O primeiro é o altar individual com Deus. Nosso primeiro compromisso, como obreiros da casa do Senhor, é mantermos o hábito de comunhão e intimidade com Deus.

Uma vida espiritual saudável de relacionamento e confiança em Deus coloca em segundo plano tudo o que pode gerar frustrações e sentimentos destrutivos (como o ciúme, a desconfiança, o sentimento de posse, dentre outras coisas que podem destruir um casamento e uma vida em família).

Fundado no altar individual vem o altar da família que é a união entre um homem, uma mulher e seus filhos, célula mínima e necessária da humanidade. Sem essa estrutura, qualquer tipo de sociedade não permanece de pé.

É na família que é evidenciada a verdadeira capacidade de relacionamento de uma pessoa com outro indivíduo (marido e esposa) que teve outro tipo de criação, que possui outra personalidade e temperamento. E também é na família onde é revelada a capacidade de convívio, de tolerância, e principalmente a capacidade de ensinar e formar novas pessoas em desenvolvimento: os filhos.

O terceiro altar é aquele que reúne famílias dentro de uma família maior, a família de Deus: a igreja do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (Ef 2:19), é nela que aprendemos a reparar e a manter em pé os dois primeiros altares (individual e familiar).

Podemos perceber, portanto, que o altar familiar é aquele que intermedeia o altar individual e o altar coletivo (que é a igreja). Uma família saudável, portanto, é uma demonstração ao mundo de um verdadeiro relacionamento íntimo com o Senhor e de comunhão com a noiva do Cordeiro.

Não é possível, portanto, estar bem em um ou dois dos altares e estar com algum dos demais com problemas. Todos eles devem crescer em conjunto e, assim, as qualidades do obreiro aprovado ficarão evidenciadas no seu procedimento com Deus, com sua família e com a Igreja.

Diante disso, o apóstolo Paulo deixa bem claro que são exigidas do obreiro algumas posturas no tocante à sua relação com a sua família e que estas qualidades devem ser transparentes, notórias, para que a igreja veja claramente que o que o obreiro é em casa, também é na igreja.

As qualidades familiares específicas na vida do obreiro

O apóstolo Paulo, no capítulo 3 da primeira carta ao jovem pastor Timóteo, texto que estamos estudando, chama atenção aos obreiros da casa de Deus para que mantenham o altar familiar como exemplo diante da igreja, a fim de que nosso ministério não seja reprovado.

Devemos verificar que referidas qualidades são exigidas não só de pastores, presbíteros ou evangelistas, mas de todos aqueles que são experimentados na cooperação da obra de Deus, aspirantes, diáconos e cooperadores (vs. 8-13).

Marido de uma mulher

Muitos leem essa primeira qualidade de maneira errada, como se o apóstolo estivesse colocando uma “obrigação” ao obreiro: “seja marido de uma mulher”. E não é isto o que o apóstolo estava querendo dizer.

Em primeiro lugar, não existem evidências em ambas as epístolas a Timóteo e a Tito de que eles fossem casados. E a interpretação deste ponto deve andar aliada com o que o apóstolo entendia e vivia acerca do casamento, e antes mesmo disso: acerca da virgindade e do desposo.

Apenas após sabermos o que o apóstolo entendia acerca do casamento e de como devemos servir na obra de Deus como solteiros ou casados, podemos voltar ao texto para interpretar de maneira correta o que ele quis dizer ao estabelecer a qualidade: “marido de uma mulher”.

O apóstolo, na primeira carta aos irmãos da igreja de Corinto, no capítulo 7 diz que “bom seria que o homem não tocasse em mulher”. Uma abordagem claramente radical, mas se entendermos os propósitos da epístola aos Coríntios entenderemos que o objetivo do apóstolo era tornar aqueles irmãos mais espirituais e menos carnais.

A cidade de Corinto era absurdamente promíscua, era um centro de orgias e de prostituição no mundo antigo. Era lá que ficava o grande templo de Afrodite (a deusa grega do amor), e lá foi levantada uma doutrina demoníaca (gnosticismo) de que Deus não se preocuparia com o corpo, mas apenas com a alma do homem, suprimindo a gravidade dos pecados carnais.

Portanto, o apóstolo faz esta construção radical para levá-los a entender o verdadeiro significado de uma vida espiritualmente saudável, a ponto de compreenderem que a bainha da nossa alma, ou seja, nosso corpo é templo do Espírito conforme foi escrito nos dois versículos anteriores ao capítulo 7 (1 Co 6:19-20).

Assim, no versículo 2, o apóstolo deixa claro: se é para o homem manter um relacionamento íntimo com uma mulher, para que seja poupado do pecado da fornicação e prostituição: “cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido”.

O conselho do apóstolo para homens e mulheres solteiros que são crentes, é que, se possível, mantivessem comunhão apenas com o Senhor, e quem não pudesse aguentar, se casasse. Mas também deixou a advertência de que o vínculo conjugal traz consigo suas responsabilidades. (1 Co 7:32-34)

Portanto, o que queria dizer o apóstolo, quanto à qualidade de ser “marido de uma mulher”? Apenas um é o significado, diante da teologia familiar do apóstolo: o obreiro da casa de Deus não pode ser mulherengo! Isto é, não pode ser bígamo, trígamo, polígamo.

Não é, portanto, proibido que haja um obreiro solteiro, caso ele se revele uma pessoa fiel a Deus, pura, que resiste ao pecado e não dá motivo para dúvidas em seu caráter, visto que não é movido por desejos carnais e mundanos.

Contudo, é recomendado que seja casado, e com uma só mulher, para prevenir das tentações da carne, e que seja fiel conjugalmente a esta única mulher. Assim, será aprovado como um obreiro que não é descontrolado, libertino e irresponsável, a fim de que não cause escândalos à igreja do Senhor.

Que governe bem a sua própria casa

A autoridade do obreiro deve ser demonstrada primeiramente em sua própria casa. Conforme vimos, a regularidade do altar familiar vem antes do altar da igreja. Assim, se não convivemos bem com nossa família na carne, como teremos um relacionamento verdadeiro com a família espiritual?

O obreiro, portanto, deve demonstrar que sua casa está bem organizada. Não se trata aqui de demonstrar luxo, o tamanho da casa, a qualidade dos móveis. Não!

O bom governo é a demonstração de que, ainda que passando por momentos de dificuldades, o homem e a mulher sabem administrar bem sua casa nos momentos de crises, não deixando a casa vir a sucumbir.

O lar é o campo de provas do caráter cristão, assim como deve ser exemplo à igreja que é chamada de “casa de Deus” (v. 15). Assim, a casa do cristão é a sua primeira responsabilidade, notadamente quando se trata de um obreiro. Somente após se mostrar apto a governar sua casa é que deve ser considerado capaz de governar a casa de Deus.

Governar significa: “ser o cabeça, conduzir, administrar, gerir”, quando se vê um obreiro com muitos problemas familiares, que não consegue controlar sua própria casa, seja financeiramente (aqui não se falando em questão de quantidade, mas de qualidade básica), seja como exemplo de ordem, um sinal amarelo deve ser aceso sobre a igreja, a fim de que não seja a ele confiadas responsabilidades maiores.

Tendo os filhos em sujeição, com toda modéstia

Primeiramente, aqui também não é uma ordem, não significa que um pastor ou obreiro necessariamente precisa ter filhos (é muito bom que tenha, mas não é uma obrigação), mas se os tiver, deverá demonstrar, com habilidade, a capacidade de educá-los com respeito às coisas de Deus.

A verdade deste ponto é que o padrão de comportamento do obreiro deve ser respeitado primeiro pela sua própria família. Principalmente entre os filhos. O que não significa que os filhos devem ser crentes. Muito menos significa que os filhos do obreiro devem ser obreirinhos, pastorzinhos, obviamente que não (seria muito bom que fossem, mas nem sempre é assim).

O que o apóstolo quer dizer é que os filhos devem respeitar o líder da família. Mesmo que eles ainda não tenham alcançado uma experiência espiritual com Deus ímpar como a salvação, é claramente necessário que demonstrem respeito às experiências de seus pais com Deus e com a igreja.

Como se saber como o filho não crente está sujeito ao seu pai? Observando se ele respeita a igreja e o ofício de seus pais.

Um obreiro que tenha seus filhos sob sujeição não sofrerá o risco de que eles escandalizem a igreja, por meio de afrontas, oposições ou outras coisas que se faça duvidar de sua autoridade. Mesmo que o filho não frequente os cultos, ainda que não mantenha uma vida piedosa, não será capaz de desrespeitar o seu pai causando escândalos contra a igreja.

Daí vem o final desta qualidade: “com toda modéstia” ou seja “com todo o respeito”. Eis o critério para observar-se a sujeição do filho ao seu pai. Portanto, se antes de compreender isto, julgávamos que algum pastor não estava no lugar certo por ter um filho descrente, já podemos alterar nosso entendimento, pois não é isso o significado do texto.

Contudo, o exemplo ainda é capaz de atrair os filhos para a presença de Deus. Aos seus filhos, todo o pai deve três coisas: exemplo, exemplo, exemplo. Se um pai der a seus filhos o exemplo certo, será fácil para os filhos se tornarem homens e mulheres de Deus.

Uma grave advertência do apóstolo:

“se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?”

– 1 Tm 3:5

É uma advertência grave e pesada contra aqueles que possuem o segundo altar quebrado ou desorganizado.

O homem e a mulher de Deus que agem bem em seu próprio lar, também agirá corretamente na igreja, honrando a Cristo Jesus.

O problema é aquele ou aquela que não sabe (ou é completamente negligente em) governar a sua própria casa. Este terá dificuldade de ter sucesso em prestar um serviço louvável na família espiritual da igreja. (Ef 5:23, 6:9).

O pai de família que sabe cultivar as virtudes do lar, também saberá fazê-lo na igreja. A igreja, conforme os ensinos do apóstolo Paulo, também é um lar, um lar onde se congregam os irmãos, a família de Deus.

Portanto, aquele que é um fracasso em administrar seu próprio lar, em manter seus filhos sob autoridade, dificilmente poderá ser colocado como autoridade na igreja de Deus, que é uma responsabilidade mais elevada e exige maior moralidade.

Autor: Rafael J. Dias

Pastor na Assembleia de Deus Ministério de Santos, advogado, escritor e ativista pelos direitos sociais. Formado em Direito pela Universidade Católica de Santos e em Teologia pelo IBAD. Especialista em Direito da Administração Pública pela Estácio. Pós-graduando em Liderança Pastoral pela FABAD.

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