As qualidades do obreiro perante a Igreja

O obreiro perante a igreja deve valorizar o ensino, não pode ser imaturo, despreparado, sem firmeza no que fala e sem condições de corrigir o que está fora de ordem.

As qualidades específicas do obreiro em relação à saúde espiritual da igreja

Todas as qualidades do obreiro são importantes para a igreja. Contudo, há alguma específicas que devem ser levadas em consideração no tratamento com os demais irmãos para que lhe seja confiado um cargo de autoridade.

Ser um obreiro é uma posição de grande importância e seriedade, que exige aptidões que podem ser desenvolvidas com o auxílio divino = graça; e pelo esforço humano = conhecimento (2 Pe 3:17-18).

O conselho derradeiro do apóstolo Pedro, ao encerrar sua segunda carta, é de que os crentes devem unir o apoio divino com o esforço e dedicação ao conhecimento, ou seja, no constante preparo para servir ao evangelho de Jesus Cristo. Isso nos revela a necessidade de que toda a igreja, e principalmente o obreiro, não seja composta por pessoas engessadas, sem perspectiva, que não estão andando para lugar nenhum e muito menos conduzindo ninguém para a melhoria no serviço.

A falta de obreiros preparados permite que todo tipo de procedimentos errados adentrem na igreja, como ocorreu em Corinto, gerando más conversações e pervertendo os procedimentos corretos que, se observados, conduzem a igreja a um crescimento saudável. (1 Co 15:33)

Daí decorre a necessidade de aplicação de qualidades específicas para que todos os obreiros tornem a igreja um local baseado em procedimentos conhecidos por todos, para que não se deixem levar por vãos costumes e vãs doutrinas, que a um momento geram até um movimento e falso crescimento e, logo em seguida, promovem a derrocada espiritual da igreja.

Essas qualidades para a saúde espiritual da igreja são:

Apto para ensinar; 1 Timóteo 3:2

Uma igreja que não possui um ensinamento firme e sólido da palavra é um clube de encontro. Não há evangelho sem uma doutrina firme pregada sem o receio de perder falsos crentes.

Visto que foi o próprio Senhor Jesus quem ensinou aos apóstolos (que em seguida passaram isso para a igreja), que a palavra de Deus não pode ser sempre agradável aos ouvidos dos homens – pois na maior parte do tempo não será (Jo 6:60-68).

Na própria epístola a Timóteo, o apóstolo Paulo deixa claro que chegaria o tempo em que as igrejas seriam ocupadas por falsos crentes, que não suportariam a sã doutrina (2 Tm 4:1-5).

Ocorre que, os falsos obreiros não querem ensinar para que não sejam corrigidos e pegos em suas próprias palavras. Por isso surgem aqueles que pregam palavras encomendadas, preocupados em agradar os ouvintes, ficam mais preocupados com o retorno dos expectadores da terra do realmente ser aprovado por aquEle que realmente está diante de nós nos observando em tudo.

A aptidão ao ensino e a defesa da sã doutrina é um dos maiores desafios da igreja em todos os tempos. Por isso deve ser uma qualidade valorizada por todos aqueles que são realmente filhos de Deus.

Os obreiros são os primeiros que devem defender uma pregação voltada à exortação e correção da igreja, que é a tarefa da doutrina. É essa a preocupação do apóstolo ao escrever também para o jovem pastor Tito, advertindo a ele que deveria organizar as igrejas iniciando em Creta, instituindo obreiros e estabelecendo como eles deveriam se comportar:

“retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes. Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras, ensinando o que não convém, por torpe ganância.”

Tito 1:9-11

Aqui não há um apelo de Paulo para que Tito saísse buscando líderes carismáticos, que atraíssem as multidões por aquilo que lhes agradava ouvir como se a igreja do Senhor fosse uma casa de show ou um teatro. A preocupação de Paulo é com a fidelidade do evangelho santo do Senhor Jesus, desmascarando aqueles que trazem confusão às verdades que a igreja precisa aprender.

O apóstolo dos gentios ordena que os obreiros fossem separados por Tito para a missão de colocar ordem na igreja, advertindo os comportamentos errados, convencendo ainda aqueles que se rebelavam contra a orientação apostólica, por interesses próprios. Levantando, assim, verdadeiros mestres na doutrina.

O maior desafio dos obreiros e pastores desta geração “netflix” em que vivemos, é manter a biblicidade de sua pregação, a pureza da doutrina, contra um mundo que coloca pratos cheios com variedades de escolha para os ouvintes preferirem a pregação que mais os agrada.

Não esqueçamos, porém, que é o ensino que nos corrige e nos coloca mais perto da glorificação eterna, enquanto o mundo não possui qualquer tipo de alimento para a alma, fragilizando-a de modo a não suportar as provações que sobrevém a todos aqueles que povoam a terra.

Não neófito 1 Timóteo 3:6

De semelhante maneira, os obreiros da casa de Deus, principalmente aqueles que servem à igreja na ministração dos cultos, não pode ser neófito. Esta palavra vem da junção de dois termos gregos: “neo” de novo, e “fitos”, que significa plantar, isto é, o obreiro não pode ter sido “semeado recentemente”, novo na fé.

Contudo, o significado espiritual é mais amplo e profundo do que o literal. O neófito é todo aquele que se nega a amadurecer na fé, não importa o quanto tempo de igreja ou de congregação ele tenha, assim como os irmãos em Corinto, que mesmo tendo todos os dons, mesmo esbanjando espiritualidade, se comportavam como meninos na fé. (1 Co 14:20)

Por esta razão, o crescimento espiritual deve ser gradativo. Conforme dizem os historiadores, Timóteo começou a caminhar com o apóstolo Paulo com cerca de 19 anos (Atos 16:3), no ano 49 d.C., calculando-se que esta primeira epístola é datada provavelmente do ano 62 d.C., Timóteo estava com aproximadamente 32 anos quando recebeu esta carta, e já estava há algum tempo em Éfeso como pastor, dentre um ou dois anos.

Assim, o próprio Timóteo, sendo um jovem obreiro, experimentou um crescimento gradativo seguindo o seu líder espiritual, aprendendo pouco a pouco tudo o que precisava. E, ainda assim, não teve a imaturidade de tentar resolver as situações de Éfeso sozinho, antes, reconheceu sua imaturidade e buscou a ajuda de seu mentor espiritual.

Timóteo poderia ter se achado já preparado, autossuficiente, não dependente de aconselhamentos de ninguém. Assim, teria abreviado seu ministério e morrido espiritualmente, bem como dado prejuízo ao trabalho em Éfeso, ao qual o apóstolo Paulo tanto se doou para que produzisse bons frutos.

O neófito tem esses defeitos, dentre outros: (a) acha que sabe de tudo; (b) acha que a consagração ao ministério é o último estágio e quando chega nele não tem mais nada para aprender; (c) acha que não deve satisfações ou prestação de contas de seu trabalho nas coisas de Deus aos seus pastores; (d) não dá o devido respeito aos seus líderes perante a igreja.

E o resultado final disso é um obreiro infantilizado e soberbo, que nunca chegará a um amadurecimento genuíno na fé.

Não soberbo Tito 1:7

A humildade foi ensinada por Jesus a todos aqueles que querem herdar os céus (Mt 5:3). Porém a soberba aqui é mais específica.

Para analisarmos o comportamento soberbo do obreiro reprovado, devemos aliar a qualidade anterior (não neófito) constante na primeira carta a Timóteo, comparando ao quanto estabelecido por Paulo a Tito para a separação de obreiros.

Paulo escreveu a Timóteo dizendo que o neófito sofre sempre o risco de se ensoberbecer, e ao acontecer isso é condenado com o diabo.

Qual é a “condenação do diabo”? O que Paulo estava dizendo aqui? Devemos lembrar quem era Satanás? A serpente do Éden e o Dragão do Apocalipse, que há de enganar os homens até o tempo do fim. Aquele que teve prazer em humilhar o homem e a mulher perante a criação.

Conforme ensina Champlin:

“Tal homem naufraga devido a algum fracasso moral (ver I Tm 1:19) ou intelectual (ver I Tm 6:21). Tal homem é entregue a Satanás (ver I Tm 1:20)”

Isso porque a palavra mesmo ensina que a soberba precede a ruína (Pv 16:18), e esta ruína é montada pelo próprio acusador de nossos irmãos (Ap 17:10), que observa a fragilidade de caráter do obreiro soberbo e coloca em prática um projeto de destruição da reputação desse irmão.

Em Tito 1:7 o apóstolo é mais direto ao dizer que o obreiro deve ser “não soberbo”, aqui a tonalidade linguística do apóstolo é mais grave, significando um comportamento prepotente, grosseiro, indicando alguém dotado de opinião obstinada no seu trato com os outros, até mesmo com seus líderes.

Todo obreiro que se preze deve demonstrar respeito com seus líderes e no seu trato para com os outros, principalmente em relação ao sentimentos das pessoas. Ao mesmo tempo que não pode ter o desejo de ficar agradando por interesse, não deve desprezar e humilhar as pessoas.

Os obreiros devem tratar-se dignamente, com respeito e cordialidade, a todos, independentemente da função que estejam desempenhando.

Veja que função é diferente de posiçãofunção é a finalidade do serviço que prestamos, de modo a podermos ser bem avaliados; posição é um cargo confiado que em si só nada pode fazer se não houver uma função prática.

Muitos querem posição, mas recusam-se a cumprir a função. A soberba está na posição, a humildade está em desempenhar a função, independentemente da posição. Qual é a nossa principal função? Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos, sendo fieis em toda nossa forma de viver.

Conclusão

Buscando sempre crescer em graça e em conhecimento, valorizando a doutrina e o ensino, a fim de amar a ordem na igreja, desejando prosseguir amadurecendo na fé, investindo sempre em um comportamento humilde, o obreiro irá muito bem na obra de Deus.

Este é o nosso desejo, que todos os obreiros reconheçam o seu papel perante a igreja e desempenhe-o com louvor.

Autor: Rafael J. Dias

Pastor na Assembleia de Deus Ministério de Santos, advogado, escritor e ativista pelos direitos sociais. Formado em Direito pela Universidade Católica de Santos e em Teologia pelo IBAD. Especialista em Direito da Administração Pública pela Estácio. Pós-graduando em Liderança Pastoral pela FABAD.

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