O Significado da Morte – por Gil Monteiro Silva

Esta obra resolve confusões e dúvidas comuns acerca da morte, produzindo no leitor uma esperança viva e reconfortante

A obra é dividida em três partes, de fácil leitura e de impressionante biblicidade.

Não poderia ser diferente, visto que o autor é filho de um dos maiores teólogos brasileiros que já tivemos o privilégio de desfrutar de seus livros e estudos: o saudoso Pr. Antônio Gilberto.

Uma das questões mais impressionantes é a maestria do Pr Gil ao abordar a eternidade do espírito, seja do justo ou do ímpio. Algo que nós, como leitores muitas das vezes despercebidos, nunca antes tínhamos imaginado: “Deus não pode aniquilar sua própria imagem”, há um destino eterno para os justos e injustos que se inicia após a morte – isso me impactou profundamente.


versão digital

O estado intermediário dos mortos

Iniciar o texto abordando o estado intermediário dos mortos foi de um nível de maturidade didática impressionante, demonstrando que o autor não possui o objetivo de perder o tempo do leitor para vender mais páginas de seu livro, muito pelo contrário, o objetivo é fazer o leitor entender desde o início que não existe estado de inconsciência e logo após a morte teremos o nosso destino espiritual, como justos ou como ímpios, conforme informa a palavra: descanso ou tormento.

A lição principal trazida acerca do desiderato do estado intermediário são “as ressurreições”. Sim! O autor resolve o estado intermediário ensinando as duas ressurreições dos justos e dos injustos, explicando com muita assertividade que a morte física é apenas o início de uma grande benção aos justos e do julgamento eterno dos ímpios. Vale muito a pena conferir!

O autor faz isso de maneira dinâmica, prendendo a atenção de forma clara e objetiva, de modo que é possível chegar ao final da primeira parte do livro com a totalidade de apreensão do propósito do autor em uma assentada.

O entendimento de Israel acerca dos mortos

Na segunda parte há uma abordagem, também muito didática e importante, do que o povo de Israel no antigo testamento entendia sobre a morte, muitas vezes contaminado pelos ensinos dos povos pagãos da antiguidade.

Após o sacrifício perfeito de Cristo na Cruz do calvário, a verdade surgiu perante todos, de modo que a ressurreição de Cristo tornou a revelação de Deus real e fiel para todos aqueles que foram firmes na fé desde o princípio, demonstrando a paciência de Deus com Israel e não uma “negligência” a favor dos erros teológicos acerca da morte, que eles, habitualmente cometiam (a exemplo de Jo 11.21-26)

A morte e os demais povos e culturas

Já na última parte, o autor nos ensina, rapidamente, os erros acerca da morte na filosofia e outras religiões e povos antigos, que, ainda hoje, possuem um enorme espaço na cultura popular, fazendo muitos se confundirem acerca do destino dos mortos.

Pelas Escrituras Sagradas, o autor deixa bem claro, para todos nós, que a única esperança que temos é nas promessas de Deus. Assim, se estivermos firmados no que a Escritura nos ensina acerca da morte, sabemos que ela é uma breve passagem para o que realmente importa: nosso destino eterno.

Conclusão

Versão livro físico: cpad.com.br
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Recomendado para todo aquele que, como eu, possuía ainda dúvidas acerca do estado intermediário dos mortos, – o que acontece logo depois que uma pessoa passa desta vida material para o estado eterno e espiritual, – ainda mais no período de pandemia em que vivemos, esta obra não poderia ter sido lançada em um momento melhor para sanar nossas dúvidas e confusões acerca de um assunto tão importante.

Muitos estão sofrendo pelos seus entes queridos, atormentados com medo do porvir, pois não entendem o real significado da morte. Para aquele que está firme em Jesus, não há morte, nunca haverá morte, apenas a vida eterna perante o Senhor da glória.

Minha nota é máxima, super recomendo a leitura.

Você precisa ter este livro em casa e dar de presente para quem estiver sofrendo.

Tolkien: uma biografia

Uma vida que criou diversas outras vidas em um mundo fantástico que expressa sua genialidade. Uma biografia que revela sua humanidade, envolta em dificuldades de lidar com o perfeccionismo e frustrações diante da complexidade de sua criação.

Tolkien: Uma biografia
J.R.R. Tolkien, filólogo e escritor

Tolkien: uma biografia

Definitivamente, esta é uma biografia que eu precisava ler.

Como aspirante a escritor que possui vários textos inacabados, a leitura da biografia de Tolkien me fez enxergar além da genialidade de suas incríveis histórias de fantasia que o tornaram conhecido.

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Em cada página eu me via em suas dificuldades, na escolha de cada palavra, na construção de cada frase, em muitos momentos sentindo-se incapacitado. Como se as palavras não fossem capazes de conter satisfatoriamente as ideias que surgiam em sua mente.

Tolkien tentou escrever por muitos anos. Mas o perfeccionismo e o sentimento de insatisfação com seus textos o levavam a deixar seus manuscritos de lado por muitos anos.

Ele não escrevia para tornar-se famoso, escrevia por acreditar no alento da imaginação, que podia lhe levar a um mundo onde suas ideias e suas virtudes podiam ser construídas sem qualquer limitação no tempo, no espaço, na linguagem ou na física.

Escrever era um ato de libertação do que se passava em sua mente, um mundo inteiro que ia-se construindo, e que, para ele, não era simples fantasia, mas era completamente real, como demonstravam suas inúmeras horas de conversas com seu melhor amigo C.S. Lewis.

Nessa minha breve resenha quero destacar, como toda resenha de biografias, os pontos chave como: vida, família, trabalho e obra literária, com minhas análises pessoais.

Vida – primeiros anos

O livro, em primeiro momento, destaca John Ronald Reuel Tolkien como filho de pais simples que faleceram muito jovens.

Seu pai, Arthur Reul Tolkien, era descendente de uma família de fabricantes de pianos e comerciantes de partituras, que em virtude de crises de produção e queda de vendas faliram.

Sua mãe, Mabel Suffield, era descendente de negociantes de tecidos que também passaram por crises.

Ambos se conheceram em Birmingham, onde se apaixonaram e trocaram cartas até consumarem o matrimônio.

O casal teve mais um filho além de Ronald (como era comumente chamado), o caçula Hilary Arthur Reuel Tolkien.

Ronald teve uma infância difícil, com a morte prematura de seu pai em 1896 (aos 39 anos), e de sua mãe em 1904 (aos 34 anos), foi adotado juntamente com seu irmão pelo padre Francis Morgan, que era o sacerdote católico romano com quem sua mãe congregava há muitos anos.

A religiosidade católica de Mabel Suffield orientou a devoção de Tolkien durante toda a sua vida. De certo modo, a criação responsável que recebeu do padre Francis também o tornou um homem grato, gentil e piedoso.

Família – juventude, vida adulta e últimos anos

Ao chegar na adolescência, na estalagem onde morava haviam muitas outras crianças adotadas.

Dentre elas destacou-se a jovem Edith Bratt, com quem Tolkien passava horas e horas conversando, tendo ambos inevitavelmente se apaixonado, apesar que Edith tivesse dois anos de idade a mais que Ronald.

O padre Francis ao descobrir ficou irritadíssimo e desconfortável com a situação, proibindo Ronald e Edith de se verem.

Ronald, como observei acima, por sua gentileza e devoção (e gratidão), obedeceu o o rev. Francis e não viu mais Edith até quando completou sua maioridade.

Contudo, quando Tolkien foi procurar Edith, já alistado no exército durante a primeira guerra e na metade da sua graduação em Oxford, ela já estava noiva.

Era uma jovem adulta de beleza notável, era difícil que outro rapaz ignorasse isso. Mas Ronald não se teve por vencido e a convidou para um passeio, onde conversaram por horas e horas.

Ali o sentimento ressurgiu como se nunca tivesse ido embora. Ao final da tarde, Edith resolveu que não estava mais noiva e se comprometeu com Ronald Tolkien.

Ambos tiveram um casamento muito bonito, de altos e baixos, na simplicidade, nas dificuldades financeiras e também no momento em que o sucesso chegou.

O casamento durou mais de cinquenta anos e só chegou ao fim após a partida de Edith.

Como família tiveram quatro filhos, Michael, John, Christopher e Priscilla. Dentre os quatro, Christopher Tolkien herdou as obras literárias do pai, como editor de obras ainda não terminadas. Tendo editado e publicado, inclusive, “O Silmarillion” que trata das histórias antigas da Terra-média, um guia completo para o entendimento do mundo criado pela mente de J.R.R. Tolkien.

Trabalho – filologia e docência

Para quem pensa que para se tornar escritor seja necessária uma formação em letras, está muito enganado.

Tolkien iniciou sua vida profissional e acadêmica ainda muito novo. A partir de brincadeiras na primeira infância, quando acentuou-se sua facilidade de inventar palavras e aprender línguas difíceis, rebuscadas e quase mortas.

Na adolescência, J.R.R. Tolkien já conhecia bem o grego, o anglo-saxão (a raiz nórdica do inglês – inglês arcaico), e falava latim com o padre Francis, seu tutor.

Porém, não era isso que destacava a sua vocação para a filologia, mas facilidade de criar vocabulários diferentes, dialetos novos que significavam palavras e formavam frases que ele mesmo compunha, entendia e era completamente capaz de ensinar.

Assim, Tolkien não precisou ingressar em uma faculdade, obter um diploma de graduação ou um mestrado para saber o que iria ser ou fazer.

Ao ler a biografia, observando o aspecto acadêmico e profissional de Tolkien percebi que ele apenas seguiu a sua intuição, nunca foi forçado a nada, apenas se tornou aquilo que tinha não só a facilidade de fazer, mas que estava na natureza da sua personalidade.

Estudar as línguas, buscar seus significados mais antigos, suas definições, construções e a partir disso inventar novos dialetos, era algo que estava entranhado nas suas veias desde a infância.

Por sua vocação ao estudo da linguística foi muito bem aceito na Universidade de Oxford como professor, onde lecionou durante quarenta anos de sua vida e ao final foi recebido como residente honorário, após o falecimento de sua esposa Edith, onde recebeu todo o cuidado e honrarias nos últimos dias de sua vida.

Trabalho e obra literária

Como destaquei no início, Tolkien era muito perfeccionista no que fazia e por isso achava que seus escritos ficavam aquém da qualidade que sua mente processava, tanto a linguística quanto o padrão da narrativa mitológica lhe deixavam completamente sistemático.

No início de seus trabalhos como escritor começou compondo poemas élficos (pois só pela mitologia conseguia encaixar seus dialetos em personagens), e logo pegou um caderno e escreveu na capa: “O livro dos contos perdidos”.

Estas primeiras “lendas” se tornariam, após muitos anos de revisão, “O Silmarillion”, o livro que explica a origem de seu mundo imaginário. Que narra a história dos “Silmalrils” (as três grandes joias élficas que dão nome ao livro), de como foram roubadas do reino abençoado de Valinor pelo poder maligno de Morgoth e das guerras subsequentes em que os elfos tentam reconquistá-las.

Tolkien queria algo aproximado das lendas nórdicas mais antigas, pelo que no início do que viria a ser O Silmarillion descreveu a criação do universo e o estabelecimento do mundo conhecido relembrando a Midgard nórdica (lar de Thor e Odin), e tirou (como sua boa tarefa de filólogo) as palavras do inglês arcaico e separou-as em duas dando origem a “Middle-earth” (Terra-média).

Entretanto, a narrativa nunca lhe pareceu satisfatória o suficiente e O Silmarillion só foi publicado três anos após sua morte editado pelo seu filho Christopher.

Em uma toca no chão morava um Hobbit

Sua obra literária se iniciou mesmo com o hábito de contar histórias para seus filhos John e Michael (Christopher ainda era bebê), nas quais surgiu um personagem chamado Bilbo Bolseiro, a quem simplesmente descreveu como pequeno, de pés peludos e que tinha muita coragem.

Muitos anos depois, em 1928, enquanto, na tarefa de tutor acadêmico, corrigia provas de alunos, uma delas estava com uma página em branco.

Naquele momento a mente de Tolkien estava simplesmente à deriva, levando-o a escrever ali a primeira frase: “Em uma toca no chão morava um Hobbit“.

Ele mesmo afirmou em entrevistas anos mais tarde que não sabia porque havia escrito aquilo.

Simplesmente, Tolkien não parou de escrever sobre as aventuras do pequeno Bilbo e do mago Gandalf, e emprestou o manuscrito a uma amiga que acabou por entregar nas mãos de Susan Dagnall que trabalhava na editora Allen & Unwin, que em seguida levou-o às mãos do herdeiro da editora, Rayner Unwin de apenas dez anos de idade, que amou as histórias de Bilbo e disse que queria o livro por inteiro.

O livro, pelo perfeccionismo de Tolkien, só viria a ser publicado nove anos depois em 1937. Quando foi aclamado pela crítica literária, vendendo milhares de cópias com o título “O Hobbit: Lá e de volta outra vez”, traduzido para diversas línguas, sempre sob os olhares atentos de Tolkien que não permitia a substituição de nomes de personagens e de lugares, em qualquer edição que fosse lançada.

O Senhor dos Anéis – A Guerra pelo Anel do poder

A editora logo pediu uma sequência à história. Mas Tolkien não queria escrever apenas para crianças, queria que seu mundo mitológico fosse totalmente conhecido, então começou a trabalhar em uma maneira de que a sequência entregasse a visão geral de “O Silmarillion”.

Logo começou a escrever sobre o Um Anel que Bilbo roubara de Gollum em sua aventura anterior, mas na sequência incluiu elementos obscuros e relações mais estreitas com os elfos e com a vastidão da Terra-média.

Devido a todo esse perfeccionismo, o livro ficou enorme e foi enviado para publicação apenas dezesseis anos depois, sendo publicado entre 1954 (A sociedade do anel e as duas torres) e 1955 (O retorno do rei) após muitas questões técnicas de impressão e comercialização, teve que ser dividido e lançado em três volumes, mas como uma única história (Tolkien fez questão que fosse publicada desta maneira – até mesmo com a numeração contínua de páginas).

Com a publicação da história da tarefa de Frodo, sobrinho de Bilbo Bolseiro, de destruir o Anel do poder sombrio de Sauron nas profundezas da terra de Mordor, o sucesso literário de Tolkien foi internacionalmente confirmado e aclamado.

Contudo, os trechos da biografia que descrevem os dezesseis anos em que passou escrevendo, reescrevendo, abandonando o texto, revendo trechos, mudando nomes de personagens (Frodo em primeiro momento se chamaria Bingo – ainda bem que Tolkien substituiu o nome), revelam algo significativo sobre o caráter de Tolkien.

A biografia destaca a humanidade de um gênio que se sentia limitado e por vezes incapaz de terminar sua obra. Isso porque, apesar do ato parturiente de colocar em palavras um mundo inteiro de anões, elfos, fadas, orques, Hobbits, homens e magos que pululavam em sua mente, há de se reconhecer que sua mente ia muito além do que seus livros pudessem conter em suas milhares de páginas.

Uma obra impossível de se completar

Ao tentar explicar o que acontecia em sua mente, o porquê de ficar tantos anos para escrever um livro, por vezes abandonando seus escritor por meses e por anos, nos últimos anos de sua vida ele escreveu “A árvore e a folha”.

A árvore e a folha conta a história de um pintor muito talentoso chamado Cisco, que estava pintando uma linda árvore. Cisco era muito detalhista e demorava-se a pintar uma única folha. Quanto mais ele pintava uma pequena folha ao vento ela tornou-se uma grande árvore.

Quanto mais ele pintava mais a árvore crescia e suas folhas se expandiam. Aves pousavam sobre os galhos e tornavam o trabalho quase invencível. Até que chegou um momento em que tudo o que o pintor conseguia se contentar não era com o fim da obra, mas com o céu que havia sobre si.

A verdade é que Tolkien nunca seria capaz de em uma única vida de homem mortal terminar a sua árvore mitológica.

Repito: Tolkien nunca quis se tornar famoso, apenas viveu e escreveu aquilo que ele era. Como termina Humphrey Carpenter nesta linda e comovente história real, se quisermos realmente conhecer a biografia de Tolkien, não é será nas páginas da biografia muito bem escrita pelo próprio Carpenter:


“Sua verdadeira biografia é O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, pois a verdade sobre ele está contida em suas páginas”

Humphrey Carpenter – “J.R.R.Tolkien: Uma Biografia”

Assim, O Hobbit e O Senhor dos Anéis serão minhas próximas resenhas literárias desta quarentena.

O dom da amizade

Ao ler sobre a amizade de C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, fiquei intrigado, pois constatei na leitura que eles tinham poucas concordâncias. Mas quem disse que amizade é concordância em tudo?

Ao ler sobre a amizade de C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, fiquei intrigado, pois constatei na leitura que eles tinham poucas concordâncias. Mas quem disse que amizade é concordância em tudo?

O que está acontecendo com o conceito de amizade? Estará a amizade acabando em razão das redes sociais? O respeito teria chegado ao fim em razão da falta de contato e da troca de afeto real?

Hoje muitos estão perdendo a noção de amizade. Acham que amizade é concordar com tudo, mas não é.

Amizade é discordar com respeito, é amar o amigo mesmo que ele não pense todas as coisas como você.

Amizade é aprender a tolerar o outro do jeito que ele é.

Amizade é não ir embora, não desistir e não guardar mágoa.

O que diriam estes dois? Ambos eméritos professores da Universidade de Oxford, de um lado: C.S. Lewis era um protestante irlandês fervoroso, e do outro: Tolkien um católico romano roxo.

Eles discordavam a noite inteira, mas não conseguiam pensar em uma semana sem uma reunião para trocarem ideias contrárias, mas respeitosas.

No fim, a literatura fantástica os uniu, um pelos anéis mágicos, o outro pelo guarda-roupa que levava para outra dimensão. Um ao outro ajudou. Verdadeiros amigos.

Temos mesmo que voltar a viver a amizade de antigamente. A verdadeira amizade que nos conduz ao sucesso (felicidade e realização). Um dom de Deus.


“Essas são as melhores reuniões […] Quando colocamos nossos chinelos, nossos pés esticados em direção ao fogo da lareira; quando o mundo inteiro, e algo além do mundo, se abre para nossas mentes à medida que falamos. E ninguém reivindica ou tem qualquer responsabilidade com o outro, mas todos são pessoas livres e iguais, como se tivessem se encontrado há uma hora, ao mesmo tempo que uma afeição enternecida pelos anos nos envolve. A vida – vida natural – não possui dádiva melhor que essa para dar. Quem poderia merecer isso?”

C.S. Lewis, “amizade”, os quatro amores.

Nós, que nascemos da virada tecnológica do século XX para o século XXI, temos muito a aprender sobre a amizade. Retornar às relações de contato, de afeto, é necessário para não perdermos o sentimento mais caro: o de “humanidade”.

O Brasil já disse à tortura: NUNCA MAIS!

Eu li o livro “Brasil: nunca mais”, prefaciado pelo finado Cardeal Arns, já em sua 41ª edição, que é uma pesquisa fundamentada em autos de inquéritos e processos da época da Ditadura Militar brasileira (1964-1985), que revelam a institucionalização da prática da tortuna, naquele período histórico por uma razão completamente infame: perseguição política aos contrários ao regime.

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Na imagem em destaque, o Dom Paulo Evaristo Arns, famoso e saudoso Cardeal Arns, Cardeal da Liberdade e dos Oprimidos, está consolando a viúva de Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, assassinado nas masmorras da Ditadura Militar em 1975, em ato de perseguição e repressão a jornalistas supostamente ligados ao, na época clandestino, “Partido Comunista do Brasil”.

Eu li o livro “Brasil: nunca mais”, prefaciado pelo finado Cardeal Arns, já em sua 41ª edição, que se trata de uma pesquisa bem fundamentada em autos de inquéritos e processos da época da Ditadura Militar brasileira (1964-1985), que revelam a institucionalização da prática da tortuna, naquele período histórico, por uma razão completamente infame: perseguição política aos contrários ao regime militar.

Hoje vivemos sob a égide da Constituição Federal de 1988, a qual já prevê como princípio da República o “pluralismo político” (art. 1º, inciso V) e concede direitos civis e políticos para todas as pessoas e grupos que queiram agremiar-se em partidos (art. 17). É traumático, para mim, que nasci neste presente período de liberdades pós-88, descobrir que seis anos antes de eu nascer haviam tais atrocidades ocorrendo no Brasil.

O livro é chocante porque nos aproxima da realidade vivida pelos jovens, adultos e idosos, que foram presos e completamente humilhados pelo regime militar, que, a pretexto de fazer a coisa certa, cometeu horrendos crimes contra a humanidade.

A parte mais especial da narrativa do livro é que conduz a uma leitura que não é feita apenas com base no conteúdo físico do livro. Nas notas de rodapé são colocadas referências aos processos digitalizados e as respectivas páginas dos autos em que estão as informações contidas em cada destaque do livro.

Isto foi possível porque, no período da Ditadura Militar, o Cardeal Arns, como líder da Arquidiocese de São Paulo na época, juntamente com o Conselho Mundial de Igrejas e outros diversos colaboradores da Sociedade Civil, como o rabino Henry Sobel e o pastor James Wright, clandestinamente, microfilmaram (hoje se diz escanearam) vários e vários processos do período, que foram destruídos, mas o registro feito corajosamente por esses ilustres pesquisadores ficou para a história.

O banco de dados se encontra no site http://bnmdigital.mpf.mp.br/pt-br/ mantido pelo Ministério Público Federal, podendo ser acessado e consultado durante a leitura. Onde podemos ver nitidamente a falta de humanidade da repressão que remontou aos períodos mais nefastos do nazismo, onde o desprezo pelo ser humano é a raiz da psicopatia de quem, por justificativas rasas, tem prazer em transformar o corpo humano em um mero objeto de satisfação de poder político.

O pastor James Wright ao sintetizar o objetivo da obra nos convoca ao engajamento contra referidos métodos de repressão política:

“O grande objetivo do livro é que ninguém termine sua leitura sem se comprometer, em juramento sagrado com a própria consciência, a engajar-se numa luta sem tréguas, num mutirão sem limites, para varrer da face da terra a prática das torturas”

Realmente, divergências políticas e críticas ao governo da época não eram justificativa para o massacre das torturas, desaparecimentos e assassinatos que ocorreram no período. Esta leitura nos faz abrir os olhos ao passado para bem enxergarmos os tempos atuais, nos levando à conclusão de que não podemos cometer os mesmos erros, e que somos capazes de impedir que não haja a repetição de referidos crimes através da lembrança vergonha daquele período.

Este livro, portanto, é humanizante, nos faz chorar, ainda que divirjamos de posicionamentos políticos daqueles que foram perseguidos, não podemos deixar de vê-los como seres humanos, que tinham o direito natural à dignidade e à inviolabilidade de sua integridade física e, acima de tudo, de não terem suas vidas ceifadas pelo poder político.

Por tais razões, esta leitura é obrigatória e está super recomendada a todos.