Arminianismo não é pelagianismo nem semi-pelagianismo

O pelagianismo, doutrina que vem de um monge bretão chamado Pelágio, que é contemporâneo de Agostinho de Hipona, e, portanto, viveu por volta do Século V d.C. (350-423), ensina que o pecado de Adão não afetou o homem que tem o total livre-arbítrio para se aproximar de Deus sem necessitar do auxílio da Graça.

Já o semi-pelagianismo, mais defendido por outro monge, agora francês, João Cassiano (360-435), ensina que a pessoa pode dar o primeiro passo em direção a Deus, por intermédio de seu livre-arbítrio, e só depois deste primeiro passo pode ser assistida pela Graça divina. Das leituras das obras de Jacobus Arminius, se observa que não há defesa do pelagianismo ou do semi-pelagianismo.

Pelo contrário, Armínio chama tais doutrinas de heresias e de falsidades com duras críticas. Quem chama os Arminianos e o Arminianismo de Pelagiano ou Semi-pelagiano, nunca leu Armínio ou as obras de Jhon Wesley, que demonstram que a doutrina arminiana não tem completamente nada relacionado ao pensamento de pelagiano ou semi-pelagiano.

Armínio defende em suas obras que o homem necessita completamente da Graça de Deus para ser salvo, visto que está em completo estado de depravação, pois foi atingido pelo Pecado Original. Todavia, em razão do pecado, o homem pode resistir voluntariamente a esta Graça, não dando ouvido à Palavra de Deus de onde emana nossa fé (Romanos 10:17), assim como denunciou Estêvão em Atos 7:51, em que disse à liderança religiosa judaica:

“Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais”

Esta realidade é biblicamente óbvia, sem necessitar de qualquer tipo de esforço retórico ou de auxílio humano na explicação do que o texto bíblico evidente e literalmente já diz. Completamente elucidativo é o que ensina o Pastor Silas Daniel, em seu texto “Em Defesa do Arminianismo”, publicado na Revista do Obreiro, nº 68, da CPAD, em 2015, e que deu origem ao livro “Arminianismo: A mecânica da salvação” (disponível na Amazon), que em breve elaboraremos uma resenha aqui em nosso blog em artigo e em vídeo para o nosso canal do YouTube.

Ensina o eminente Pastor Silas Daniel que:


“[…] o Arminianismo ensina, à luz da Bíblia, a Doutrina da Depravação Total do ser humano, isto é, que o ser humano é tão depravado espiritualmente que precisa da graça de Deus tanto para ter fé como para praticar boas obras. Escreve Arminius: “Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da graça divina” (ARMINIUS, Jakob, A Declaration of Sentiments, Works, vol. 1, p. 664, traduzido em Revista Enfoque Teológico, vol. 1, no 1, 2014, FEICS, p. 105).

Ou seja, o homem não regenerado é escravo do pecado e incapaz de servir a Deus com suas próprias forças (Rm 3.10-12; Ef 2.1-10). O Arminianismo nunca ensinou que, por ainda ter em si resquícios da imagem de Deus, o homem tem a capacidade de, mesmo no estado caído, corresponder com arrependimento e fé quando Deus o atrai a si. Não, a iniciativa é sempre de Deus, já que o homem, em seu estado caído, não pode e não quer tomar iniciativa. À luz da Bíblia, o Arminianismo sempre defendeu que é através da graça preveniente que a depravação total, que resulta do pecado original, pode ser suplantada, de maneira que o ser humano poderá, então, corresponder com arrependimento e fé quando Deus o atrair a si. O livre-arbítrio é decorrente da ação da graça preveniente. Vem de Deus a capacidade de arrepender-se e ter fé para ser salvo. Em terceiro lugar, à luz da Bíblia, o Arminianismo ensina que a graça divina pode ser resistida. Como afirma Arminius: “Creio, segundo as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que lhes é oferecida” (ARMINIUS, Ibid., p. 664 in Revista Enfoque Teológico, Ibid., p. 108). São inúmeros os textos bíblicos que deixam clara a possibilidade de resistir à graça divina (Gn 4.6,7; Dt 30.19; Js 24.15; 1Rs 18.21; Is 1.19,20; Sl 119.30; Mt 23.37; Lc 7.30; At 7.51; 10.43; Jo 1.12; 6.51; 2Co 6.1; Hb 12.5).

É equivocado pensar que Deus não é absolutamente soberano se concede ao homem, através de Sua graça preveniente, o livre-arbítrio, isto é, uma vontade livre para escolher ou não a Salvação. Ora, um deus que no fundo manipula as decisões dos seres humanos ao invés de, pela Sua graça, conceder-lhes a capacidade de livremente ter fé e se arrepender para convidá-los a Cristo, não pode ser plenamente justo. É verdade que ninguém merece a Salvação, mas se Deus resolver salvar uns e condenar outros sem conceder uma possibilidade real de escolha para Suas criaturas, estará manchando Sua justiça. O atributo divino da soberania deve estar em perfeita harmonia com o Seu caráter, que é santo e justo (Is 6.3). Os calvinistas gostam de citar, em favor de sua crença em uma graça irresistível, João 6.44, onde Jesus afirma: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia”. Só que o termo traduzido aqui como “trouxer” é, no grego, elkõ, que, segundo o tradicional léxico de Strong, tem mais o sentido de “atrair”, “induzir alguém a vir”. Ou seja, Deus atrai; Ele não força. Ele não violenta a liberdade humana concedida pela Sua graça e soberania. Jesus disse que os que vêm a Ele não são forçados, mas atraídos a Ele (Jo 12.32).”

Se nota, portanto, que o segredo da questão para entender o resgate que Armínio pregou em relação ao homem em estado de Depravação Total é a “Graça Preveniente”. Preveniente nada mais é do que algo que vem antes. A Graça de Deus sempre vem antes de todo e qualquer tipo de comportamento do homem. A Graça está lá, disponível, bem como também já estava com Deus desde o princípio (João 1:1), ou seja, também estava com o homem no Jardim do Éden, tendo o homem resistido à Deus e desobedecido acabando em cair desta Graça, podendo, agora, ser resgatado pela Nova Aliança de Cristo feita na Cruz do Calvário.

Agora basta que aquele que aquele que tem fé, ou seja, que já ouviu e creu na pregação do Evangelho, “se aproxime” de Deus e creia que Ele existe e que é galardoador dos que o buscam. É o que efetivamente diz o escritor de Hebreus no versículo 6 do capítulo 11. Logo, a Graça já está dada para a salvação, Jesus já nos convida a vir até ela tendo nos justificado. A partir de então, o aproximar-se de Deus, sem resistir-lhe, pertence ao homem.

Isto não é pelagianismo nem semi-pelagianismo, simplesmente porque tanto a atração à Graça e a efetivação desta Graça com a salvação do homem que a ela se entrega, vem de Deus. Pois o homem em estado de queda fica completamente carente deste contato com o salvador, que vem a ele por meio dos pregadores do evangelho, por intermédio de louvores que atingem em cheio com a Graça salvadora o coração deste homem que necessita ouvir. Daí em diante, dando seus ouvidos à pregação pode ser transformado e regenerado por Cristo Jesus.

Qualquer outro tipo de comentário que tente refutar tais realidades bíblicas, com todo o respeito, não serão educados nem mesmo honestos. Pois dos próprios textos originais de Armínio o vemos defendendo a biblicidade da Depravação Total e da Graça Preveniente que atrai o homem a realmente aproximar-se de Deus, podendo o homem resistir-lhe com a dureza do coração e comichão nos ouvidos.